24 de jan de 2015

Reflexão pé no chão


Caretinha do Chico Anísio com as legítimas. Por óbvio,  no 
texto, originalmente publicado no jornal, não menciono marca.


Depois de um par de dias sem escrever, tô na área. Precisava reciclar algumas ideias. Não tirei férias. Foi recesso dos excessos. Ainda não pendurei o chinelo, viu? Aliás, literalmente, lavei o meu velho "de dedo". Verdade. Tenho um daqueles exemplares clássicos que não soltam a tira, não deformam etc. Não vou citar a marca pra não fazer merchandising. Existe isso? Será que se eu citasse a grife, mandariam um pisantezinho colorido de brinde? Não. Tô sabendo.

Dá nada. Ano novo. Retórica nova. Em 2014 alguns leitores me chinelearam, pois andei falando muito de política. Prometo voltar à velha verve pé no chão. Aceitem meu selo de autenticidade de mim mesmo. As legítimas crônicas retrô estão de volta. Engraçadinhas. Inocentes. Azul no branco. Igual as minhas chinelas. Nem mais nem menos: 39-40. Nem lancha, nem do que se possa queixar. Mas que estavam sujas, estavam. Encardidas, diria. Cena de Sebastião Salgado. Em cada tela, uma pegada monocromática estampada. Sudário profano. Taquei na quiboa. Quiboa pode dizer? Pois bem. Tá lá. Secando ao lado do tanque. Ficou uma lindeza. Novinho em folha. Offset não reciclado. Papel aceita qualquer coisa... Parágrafos de pé trocado. Ah, os bons e velhos trocadilhos infames. Piadas aos bordões. Saudade do Chico Anísio dos anos 70. Chico City. Não quero arrastar a sandália pra tendência alguma. Muito chato ser fiscal de ideias. Vendedor de ideologias. Cada um sabe onde não lhe aperta o reclame.

Estamos entrando numa era muito, muito difícil de calçar. Somos cinderelos chinelões. A politicagem correta vestiu a carapuça. Gerou-se o metapoliticamente correto. Impossível dialogar. E quem poderá se opor? Vide as últimas notícias planetárias. Tudo muito rápido. Fundamentalistas executaram a redação do semanário satírico francês. Os caras pegaram no pé dos muçulmanos e a coisa acabou como sabemos. Ou não. Quem sabe? A direita mundial clamou por justiça, criando um sentimento extremamente antiextremista em que a fobia islamofóbica meteu o terror. Je suis Charlie, foi a lição repetida em nome da liberdade de expressão. Quando achei que tava entendendo, li a metacrítica Je ne suis pas Charlie, em linhas apócrifas do Leonardo Boff, que depois deu o crédito ao verdadeiro autor, que não gravei o nome. A seguir, foi a vez de Slavo Žižek apontar que a culpa autoimposta pela esquerda internacional também alimenta o explosivo fundamentalismo. Evocou, para tanto, uma percepção de Nietzsche sobre como a civilização ocidental se move para o que chamou de o último homem, ou seja, uma "criatura apática com nenhuma grande paixão ou comprometimento". Na releitura do filósofo achei antes uma esperança do que uma denúncia. Talvez nada nos reste senão esta incapacidade de sonhar que não assuma risco algum, buscando apenas o conforto e a segurança enquanto expressão máxima da tolerância. Talvez só falando de chinelo mesmo descubramos a mais autêntica e rasteira felicidade universal.


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