7 de dez de 2014

A era das incertezas

Uma das coisas de que estou quase certo é que o brasileiro não tem certeza de coisa alguma. Não sabe se dança na corda bamba ou se cai como um viaduto. Se é bêbado ou equilibrista. Não sabe se dá ou pede pra descer. Se assobia cana ou chupa o hino nacional. Digo isto também com o pé no chão da dúvida. E alguém me avisou pra pisar neste chão devagarinho. Eta povinho pra gostar dum cima de muro. Tudo tem dois lados. Ou mais. Fica difícil reconhecer-se e, ainda pior, identificar o outro e seus direitos. O vício emocional é antigo. Advém de nossas origens mais remotas. Coloniais, ora pois. Sequer decidimos se o Brasil foi descoberto ou achado pelos portugueses. Ou seja, a coisa já começou mal. A relação com os nativos da terra, ainda nos primeiros anos, fundava-se em uma dualidade de amor e ódio. Isto, claro sem deixar de levar em conta suas especifidades culturais, que nos fazem pensar sobre a impropriedade talvez cometida ao chamá-los de índios, com uma unidade quiçá inexistente. 
Em 1808 a grande família veio para o Brasil. Sempre lembro do Nanini e da Marieta no filme da Camurati. Se foi fuga ou estratégia militar contra as tropas de Napoleão ainda não fomos capazes de decidir. Há quem considere a vinda da corte e seu aparato burocrático como a verdadeira independência do Brasil. Que nada! Tratava-se da Metrópole na Colônia. A montanha foi a Maomé. Confusão total. Depois veio a Independência de fato (ou de direito?), de pai pra filho. Um português libertador dos portugueses. Só que não. Bem diferente de Simón Bolívar, o libertador da Venezuela e da Colômbia, que originou o impropério “bolivariano”, tão repetido recentemente pela mídia e e pelos neo-udenistas. Mal empregado, portanto, posto que ao se desejar associação com o comunismo erram feio, pois Bolívar, a despeito dos ideais progressistas, era um liberal. Naquela época, aliás, o socialismo nem era utópico. O Brasil tampouco se resolvia liberal ou conservador, até que o imperador abdicou em favor de seu ainda imberbe infante. No meio do caminho havia outro Pedro. De revoltas regenciais à Guerra do Paraguai, as incertezas levavam as honrarias. A República já começou velha. Café com leite. Café com leite? Chimarrão foi a resposta na “revolução” burguesa de 30. E as intentonas, comunista ou integralista? Eixo ou aliados? Vargas escolheu os dois. Na dúvida, a vida e a história. E assim seguimos sempre unânimes nesta síntese de incertezas. Catolicismo ou candomblé? Protestantismo ou Espiritismo? Tudo junto reunido. O brasileiro quer tudo. De Carmem Miranda ao south american way. Ai, ai. Ai, ai. Parlamentarismo ou presidencialismo? Legalidade ou golpe? Marcha com a família ou com o sem-terra? MDB ou Arena? Sim ou sim, senhor?  
Isto tudo fica ainda mais claro no cenário político atual. Vota-se na esquerda para ter um governo de possibilidades ao centro. Usa-se a democracia para pedir intervenção militar. Reclama-se por mudanças ao bispo, a Deus e a todo mundo. Exige-se o direito de mandar qualquer um pra Cuba. Mais do que a era da intolerância, vivemos a era das incertezas no Brasil.


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