10 de out de 2014

Antes do choque

O texto a seguir publiquei às vésperas do desastroso primeiro turno das eleições de 2014. 
A ignorância venceu a esperança. O racismo jogou uma banana no campo da igualdade racial. 
O preconceito estuprou corretivamente a diversidade.
Bolsonaro e Feliciano reeleitos. No RS o deputado mais votado é tudo que não presta.  

A luta apenas começou...
E que o segundo turno nos reserve dias melhores.

Sopros de mudança

Apesar dos pesares está sendo uma eleição empolgante. Alguns ainda dizem que não têm opção. Que vão anular ou apertar a tecla branca. Outros seguem comprando o desgastado e conveniente discurso da culpa exclusiva dos políticos. São ladrões, são sem-vergonhas etc. Se não houver um Salvador da Pátria, não brincam mais. Esse eleitor raramente se vê como partícipe. Como aquele que escolheu (salvo os que nunca elegem seus legítimos representantes por minoria de votos) os membros do Congresso e a chefia no Planalto. Falta maturidade política e ideológica, dizem os especialistas. Mas convenhamos que nunca antes na história deste país se discutiu tanto sobre política. Talvez nem 1989 com Collor, Lula, o velhinho das Diretas, o homem do cavalo branco e o resto da tropa. Eram outros tempos, ainda cheirando a chumbo e mais suscetíveis à manipulação televisiva que governava com os militares desde 1964. Desde lá as coisas vêm mudando.
Atualmente temos acesso à informação pela internet e redes sociais e os debates alcançam as ruas. Muitos dos que tinham pânico do Partido dos Trabalhadores ironicamente agora pedem reformas mais contundentes. São contra o assistencialismo.
Claro que sempre resta um ou outro paranoico que acredita que o Brasil vai virar uma Cuba miserável em que as pessoas se lançarão ao mar para não perder a propriedade privada e a religião. Tipo veterano da guerra fria. Fora isso, a demanda popular é por avanços. Marina cresceu desde o velório de Eduardo Campos com o discurso de uma nova política. Segurou a vela no fim do túnel das expectativas por mudança. Sua chama, contudo, não resiste ao menor vento dos anseios reais da população. Até aí, morreu o Neves. O PSDB se quebrou ao propor mudanças de marcha à ré. Dilma encampou a ideia da mudança com a campanha do muda mais. Apesar da antipatia da presidenta, está convencendo. E cá para nós, de político sorridente, Sucupira está cheia. Luciana Genro foi a voz da velha esquerda. Chatonilda total, mas disse muitas verdades e tende a crescer nos próximos pleitos.
Há os que apregoam que não exista mais esquerda ou direita. Talvez seja até melhor pensar por aí, para perder os medos bobos. O brasileiro quer terra para quem quer plantar? Casa própria? Educação gratuita e de qualidade para os seus filhos? Quer médico sem filas ou mensalidades de plano de saúde? Quem não quer isso? Quem não deseja ver o país mudar mais? Então chame do que quiser, de canhotos ou destros, mas procure os candidatos que assim o defendam. Eu sei. Sempre tem gente que discorda. Que não suportaria ser atendido por um dentista negro. Por um médico índio. Que acha que aeroporto virou rodoviária. Que não aguenta ver um casal do mesmo sexo de mãos dadas no cinema. Para esses, só resta o sopro dos ares de mudança no fim do túnel. E quem não quiser ficar com a vela na mão, que busque outras luzes. Bora discutir Foucault! Vamos estudar mais filosofia. Literatura. História. Sociologia. Antropologia.
Apesar de ainda haver tanta desinformação no país, esta semana senti certa esperança. O processo de mudança já iniciou. A religião volta ao leito do seu rio, o do foro íntimo. Maluf caiu fora pela lei da ficha limpa. As irregularidades estão sendo apuradas. As capas da Veja já não convencem. Pensamentos homofóbicos como o do Fidélix, que ainda encontram eco dentro de muitos armários por aí, vão silenciar cedo ou tarde ante o estrondoso barulho da reverberação dos que pensam e defendem o respeito à diversidade. Já não se tolera a intolerância. O Aranha abriu a boca. O jacaré também. O processo histórico é esse. De mudança. E não vai parar. Dias melhores virão.

Publicado no

Nenhum comentário: