13 de set de 2014

Magia ao luar



Woody Allen é mágico. Sempre me surpreende. Lançando um filme por ano, ele tem alternado os grandes filmes com os meia-bocas. Claro que um filme mediano dele é melhor que o melhor de muita gente. Meia-noite em Paris foi excelente, rendendo Oscar de melhor roteiro.

Depois, Para Roma com amor, trouxe pouca ou nenhuma graça além do quase palíndromo do título em bom português. Até o trailer me pareceu cansativo. Em 2013 foi a vez de tirar da cartola o ótimo Blue Jasmine, que rendeu outra estatueta, de melhor atriz, para Cate Blanchett. Esse ano era a vez do abacaxi, mas não se iluda, o novo filmezinho é bom. Ótima fotografia, figurinos e locações na França. É mais uma de suas produções analógicas que funcionam. Ainda em cartaz, Magia ao luar, quase passa em brancas nuvens se o tomarmos como literal. Conta a história de um mágico, o inglês Stanley Crawford, que no final dos anos 1920 dedica-se a desmascarar médiuns farsantes. Ele é desafiado por um amigo a descobrir a verdade sobre uma bela moça espiritualista que vinha causando com suas previsões e dons paranormais. Rola a paixão e ele vê seu ceticismo ser testado ao limite. Se contar mais do enredo, estrago os truques do filme. Vejamos o protagonista. Em seus espetáculos, o ilusionista (caucasiano, mal-humorado) traveste-se de Wei Ling Soo (um oriental simpático). O personagem teria sido inspirado no americano William Ellsworth Robinson, que adotava o mesmo recurso cênico, vestindo-se como um chinês chamado Chung Ling Soo. Neste complexo jogo de aparências há ainda a referência ao grande Houdini, que assim como Robinson e o protagonista, também desvendava casos de charlatanice mediúnica.

Harry Houdini, 1899
Houdini era húngaro e morreu nos Estados Unidos com 52 anos de idade, com apendicite decorrente
da tentativa de suportar golpes no abdômen. Já Ling Soo (Robinson) era americano e morreu em Londres com 56 anos, executando o truque de apanhar a bala disparada contra o próprio corpo. Contemporâneos sem nunca terem se encontrado (nada achei sobre), trazem ainda a coincidência de um ter morrido no dia do aniversário do outro, 24 de março, o que não tem absolutamente nada a ver, mas, enfim. Houdini foi aconselhado a nunca tentar o mesmo número, havendo indícios que o tenha praticado anos antes.

A ironia de toda essa história foi percebida por Allen como um conjunto de ingredientes para compor sua trama maníaco-existencialista de sempre. Em outros títulos de sua filmografia já apresentara ilusionistas, como no curta Édipo arruinado, em que um mágico faz sua mãe desaparecer do palco e por acidente a coloca no céu sobre Nova York falando sem parar a todos os citadinos. Acaba recebendo a ajuda de uma charlatã para reverter o quadro. Mas a magia deste novo filme talvez ocorra pelo fato de o diretor nos enganar que discuta sobre o ceticismo versus o sobrenatural quando na realidade guarda na manga as cartas de outras metáforas. O filme trataria do que parece ser mas não é. Da hipocrisia de buscarmos desmascarar a fraude alheia com os próprios rostos pintados. De desvendar um truque com outro. Da grande ilusão que é a vida e suas ironias.






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Um comentário:

Francisco Antônio Vidal disse...

Os críticos consideram este um filme "esquecível". Como se a inesquecibilidade fosse uma característica objetiva dos filmes.
Mas é preciso ter olhos e alma para perceber as metáforas.
Citei aqui este bom comentário.
pelotascultural.blogspot.com.br/2014/09/magic-in-moonlight.html