17 de ago de 2014

Tanto fez como tanto faz

Ilustração de Andre Kitagawa - http://www.kitagawa.com.br/

Justamente quando estamos mais livres para raciocinar e discutir os mais diversos assuntos, patinamos sem sair do lugar. O politicamente correto foi a maior invenção do conservadorismo. Os assuntos mais obviamente polêmicos perdem-se na fluidez dos deixa-dissos temáticos. O relativismo alcançou um ponto gelatinoso que evita a construção de qualquer novo alicerce e ficaremos no rés do chão.

O surrealismo das situações em que vivemos chega ao ponto de me fazer duvidar de que isso tudo que está aí faça parte de algo que pudesse passar no Jornal Nacional. Só um momento. Deixe eu explicar melhor, porque a essa altura o leitor espera que eu transite de um eufemismo metaforicamente afetado a uma aplicação pé no barro, com uma lição de moral ou uma crítica ácida sobre esse ou aquele aspecto do cotidiano. Não. Hoje não. Aceito de boa a pecha de abobado, alienado, anarquista, apóstata, ateu e todo o Aurélio afora de impropérios. Prefiro isso a posar de dono da verdade. Preciso de férias do real. Voltar a fazer a ficção bissexta sem agendas descartáveis. Universos paralelos podem ser mais lógicos. Quando só escrevia contos talvez até fosse feliz. Nem sabia. Não tenho por que opinar sobre coisa alguma. Tanto fez como tanto faz. Tá tudo na cara mesmo. Quase toda discussão atual esgota-se em si. Nelson Rodrigues que me perdoe, mas cansa fazer essa miscelânea do óbvio ululante chamada crônica.

Casamento entre pessoas de mesmo sexo? Tanto faz. As relações em todas suas formas sempre existiram. Não entendo por que tanta polêmica. Tudo é feio ou errado. Aborto? Ocorre diariamente. Bebês, no lixo. Fetos, no esgoto. E acompanhamento médico é que está errado? Agulha de tricô no útero dos outros é refresco? A pílula nossa de cada dia (ou do dia seguinte) mata almas?

E a legalização da maconha? Que viagem! Quem não fumou nos anos 70, 80 ou 2000 provavelmente nunca teve problemas com quem fumou. Te liga, mano! E se vai jogar a primeira pedra sai de baixo que meu telhado é de vidro. Tô fora! O comércio da erva continuará, legalizado ou não. Tanto faz. E a esquerda, que falhando na execução de seus postulados mais inadiáveis, alimenta a ira dos reaças, impulsionando uma nova esquerda? Não é evidente? Eu que não vou jogar pra torcida.

Quer outra obviedade esparrenta? Nenhuma das religiões professadas no mundo foi capaz de oferecer um deus perfeito, que não tenha sido mal criado pelos homens. Em todas as culturas de todos os tempos, as divindades estão inseridas no contexto de sua época. Mas sempre se acha que o nosso tempo é diferente. Sabemos a verdadeira verdade. Deus nos livre do contemporaneocentrismo. Estamos cegos.

E a Ciência? Eureca! Rá, glu-glu! Não sabemos nada! De onde viemos? Com tantos testes em animais sequer temos a cura pra gripe, pro câncer ou pra calvície. E por falar em flores, até quando vamos criar seres sencientes pra comer ou fazer sabão? Ou se aceita que a carnificina de nossos antepassados cabeludos evoluiu para uma opção cultural ao sapientíssimo glutão, ou voltemos a caçar na dentada, bons selvagens que somos, carecas de tanto pensar nas mesmas coisas. É isso! Vou escrever um romance. Fui e tanto faz.

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