5 de jul de 2014

A Copa sociológica

Esse texto saiu em versão compacta no Diário Popular (04/07) e
com prorrogação no Cultive ler... Mas isso foi antes da desgraça 7x1.
E posto agora (10/07) aqui, só por postar.

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 A Copa do Mundo virou amostragem para a sociologia de boteco. Nunca vi tanta discussão sobre posição social, educação e cor da pele de torcedores nos estádios. Onde estavam todos esses “sociólogos” antes? Muitos dos que propagam tais análises são os mesmos que batem no sistema de cotas para a universidade. 

É óbvio que o turismo inflaciona o mercado. Ingresso de jogo de Mundial não vai ter o mesmo valor que gauchão. Cachorro quente e bebidinha gelada também não. Se é uma elite branca e mal educada a que vai aos jogos e vaia hino alheio, como insistiram em repetir semana passada, parece que o problema é mais complexo e preexiste ao campeonato. No jogo de sexta a turma se comportou. Exceto o colombiano que deu a voadeira nas costas do Neymar. 

A maioria do povo brasileiro adora futebol, certo? É bacana, eu sei. Consequência da lógica do pão e circo tão propagada pela própria mídia que ganha muito, muito dinheiro para manter as cabeças ocupadas todos os finais de semana, além do monopólio de assuntos nas segundas-feiras no trabalho. Todo mundo sabe que futebol também is money. Paga quem pode, assiste quem tem tempo. O lance é que a diversão de massas como argumento para justificar esse ou aquele posicionamento político é chute canhoto de batedor destro. Desde quando a oposição se preocupa tanto com o uso político que se faz de um esporte? Pelo menos na época dos milicos e do sociólogo FHC o esquema tático era outro. Milagre econômico e plano real e ai de quem falasse em uso político. 

" Juro que nem folheei, até porque jamais levaria."




Dia desses, na fila do supermercado, vi a capa de uma revista que não vou citar, uma que faz oposição sistemática à Presidenta e seu partido... Tá bom era a Veja, mas só vi mesmo. Juro que nem folheei, até porque jamais levaria.

E a manchete era a seguinte: 



“Só alegria até agora: um festival de gols nos gramados, menos pessimismo nas pesquisas, mais consumo, visitantes em festa e o melhor é aproveitar, pois legado duradouro, esqueça.” 

É patético! Os caras lá bebem antes de escrever? 

Agora que a Copa está indo bem e eles não têm como seguir pregando o apagão do Mundial, estão preocupados com o futuro dos estádios. O que fazer com os estádios, meu Deus? Não sei. Se as cidades sedes não sabem jogar bola, vou dar uma ideia: rock´n roll. Façam shows então! 


Um dos colunistas da citada revista, liberal confesso, chegou a ser motivo de chacota internacional semana passada por apregoar que a cor vermelha no logo da Copa 2014 era propaganda comunista do PT. Só rindo mesmo. Kkkkk pra ele!

Antes que alguém pense que estou censurando as maravilhas do pensamento liberal, vale lembrar que isso é o que faziam os governantes durante a ditadura no Brasil, com amplo apoio da Veja e outros puxa-sacos dos coronéis. 

O filósofo Paulo Ghiraldelli chamou a atenção em seu site para a vinheta da Copa, em que o garoto da favela e toda a periferia observam de fora a iluminação dos estádios em jogo, bem de longe. Ok, morremos de pena. Queria que todo mundo entrasse. Mas não cabe, né? Então rola a lei da demanda e da oferta e sim encarece o ingresso. Queriam o quê? Que fosse de graça? Eu ando sem grana, o que não chega a ser exemplo, pois não gastaria em jogo algum. Contudo, se eu quiser ver o Paul McCartney ou o Ringo Starr, o Caetano ou o Gil tocando tenho que pagar pelo ingresso, o governo não vai bancar. Sabe o que é pior, poderia até bancar, não para mim, claro. Só que aí, quando é criada uma bolsa cultura, o pessoal (geralmente os que podem pagar) vão na canela da tia! 

Deixa pra lá. O Brasil segue na Copa. Boa partida na próxima terça, no sofá de sua casa ou no boteco. Se beber não redija e evite os balões sociológicos. 

5 comentários:

Marcelo Soares disse...

Os países mais desenvolvidos, com melhor IDH do mundo, tem economia liberal. O que não era publicado no governo militar era matéria comunista, dos "puxa-sacos" de Marighella, Fidel Castro e outros defensores das maravilhas do pensamento do governo comandar a economia.

Márcio Ezequiel disse...

Marcelo, Independente do viés político e econômico acho que não se deve ser contra qualquer manifestação de pensamento, ainda que não se concorde desde que não cause dano a alguém.
Apesar disso, vale lembrar que muita gente boa no Brasil foi censurada, muitas vezes por excessos da Divisão de Censura de Diversões Públicas. Você acha que tava certo censurar Caetano, Gil, Chico Buarque como subversivos? Amordaçar Ziraldo, Dalton Trevisan, Ignácio Loyola Brandão, Caio Prado Jr. Darcy Ribeiro, o grande liberal FHC e tantos outros hoje respeitados. Até novelas como Roque Santeiro do Dias Gomes foi censurada! Fala sério. Eu prefiro um mundo com liberdade de pensamento. Sugiro a leitura de Repressão e Resistência: Censura de Livros na Ditadura Militar, de Sandra Reimão, que cita lista de quase 500 livros censurados, ou do Zuenir Ventura que contabiliza ainda de 1968-1978 cerca de 500 filmes, 450 peças e mais de 500 letras de música com a tesoura da repressão.

Marcelo Soares disse...

Caro Márcio, e as tantas outras produções culturais que houve na época, porque não foram censuradas?
Jovem Guarda, Tropicália, faziam sucesso e suas músicas estão aí até hoje.
O que realmente queriam esses artistas e escritores, na fase de Guerra do Araguaia, atentados a bomba, treinamentos em Cuba, pra implantar aqui o comunismo?
Ah: Esqueceste de postar as fotos dos outros 3 campeonatos: Jango com os campeões em 62, JK em 58 e Itamar Franco em 94.
Também sugiro que leias livros como "País dos Petralhas" e "A Verdade Sufocada". Os militares entraram pra não entrar o comunismo. Lembra-te que o mundo não era multipolar como hoje. Era BIpolar. É preciso pensar como era a época. Todas as nações tinham que escolher um lado ou outro. Ou o modelo político-econômico soviético ou o americano. Onde entrou o comunismo, muitos autores não foram só censurados, mas mortos mesmo. Só o Fidel executou 17000 pessoas.
FHC era bem esquerdista à época, assim como Serra. Também sou a favor de imprensa totalmente livre (coisa que em país de esquerda nunca existiu ou vai existir), mas o mundo era outro, e defender a esquerda é defender o que poderia ter sido bem pior do que foi. Leia mais sobre as atrocidades cometidas nos países do lado soviético, que os socialistas tanto defendem hoje. Lá os regimes eram de exceção, que nem aqui. Seria as mesmas barbáries aqui, com dinastia de líderes eternos e tudo. Aí entra sim o viés político e econômico.

Mas com certeza, sou a favor da democracia e do diálogo, apenas sou totalmente anti-comunista.

Com respeito sempre, amigo

Marcelo.

Márcio Ezequiel disse...

Pois é... complicado tudo isso. Quanto às imagens escolhi algumas, foi uma seleção apenas.
Já a Jovem Guarda é sabido que apoiava os militares e tinham um discurso social e politicamente alienado em suas canções (sem juízo de valor pois acho que toda arte tem que ser livre e adoro Beatles, fonte de inspiração do ieieiê nacional). Já o pessoal da Tropicália estava caminhando contra o vento teve que se exilar em London, London. Chico Buarque teve que se mandar também e rodar mundo pra escapar da roda viva.Nos citados países superdesenvolvidos houve regimes de exceção? Não deveria ser contraditório a um liberal defender a intervenção militar? Será que hoje a economia não é mais saudável e menos amarrada? Prefiro o Mantega ao Delfim. Já os exemplos extremistas q citas, como o Araguaia e os excessos de Fidel, encontram muitos paralelos no mundo capitalista. Vide as investidas norte-americanas em... bem, toda sua história bélica. Muitas injustiças foram cometidas dos dois lados do muro. Assim como sou contra a censura, seja por qual regime for, por óbvio sou contra extermínios e execuções. Mas não existe "se" na história. Não temos como argumentar como seria "se" os comunistas dominassem o Brasil, porque isso nunca aconteceu. O fato é que o período militar no país aconteceu e cometeu atrocidades e espero que você não negue isso, pois aí não tenho energia para contra-argumentar. Em suma, e acho que isso é o mais importante, é percebermos que queremos a mesma coisa. Justiça, cultura, educação e saúde para todos. Paz, igualdade e liberdade de pensamento e expressão para desenvolver as potencialidades pessoais e sociais e principalmente ser feliz ao lado de nossos contemporâneos de jornada. Acho que o Brasil ainda tem muito que amadurecer intelectualmente para ser capaz de debater sem ir para confrontos reducionistas, de onde não saem soluções, mas somente disputas ideológicas. Considero muito válido o papo que tivemos aqui e agradeço por manter o respeito e a serenidade tão raras hoje em dia. Abraço sincero!!!

Marcelo Soares disse...

Márcio, sou liberal economicamente, creio que a intervenção militar (aqui foi de direita) foi necessária, embora não fosse o preferível, que seria presidentes civis. Quanto aos regimes de exceção, me referi aos países comunistas.

Contudo, com certeza admiro teus escritos e concordo totalmente que queremos liberdade, justiça, ao lado dos nossos contemporâneos.
Está certo.
Espero não teres me levado a mal, adorei o papo, meu velho.

Fica com Deus.

Amigo Marcelo.