6 de jun de 2014

Causa animal

A Câmara dos Deputados aprovou, na noite da última quarta (04/06), projeto de lei que proíbe o uso de animais em testes laboratoriais para a indústria de cosméticos. O projeto seguirá para o Senado, mas já tem mais de meio caminho andado, tendo passado pelas variadas comissões de sempre. Para quem não se tocou ainda, vale lembrar que todo produto de toucador é aplicado em cobaias não humanas para evitar reações alérgicas e danos à saúde do consumidor (humano). Quer os artigos mais batidos, quer os retocados com novas fragrâncias e aromas, via de regra, são aspergidos ou friccionados na pele, nos pelos ou nas mucosas da bicharada pra ver no que dá.
O leitor talvez ignore o assunto ou prefira nem saber. Afinal, causa desconforto para alguns ou mesmo irritação para outros. Independente, contudo, da concordância ou ciência, o fato é que os experimentos existem e estão a serviço da indústria não apenas de cosméticos, mas de higiene, de alimentação, farmacêutica, isto sem falar nas pesquisas médicas e veterinárias. Não vou ampliar o rol da tipologia dos testes, pois o assunto é vasto e a polêmica muitas vezes acaba servindo antes para silenciar a reflexão. Vamos nos ater à matéria votada na Câmara.  
Como ácido no olho dos outros é refresco, algo geralmente alegado é que essa é a única maneira de ter segurança no uso dos produtos. Este argumento serve como uma luva ao consumismo da futilidade, que a cada ano cria novos produtos de beleza e higiene, com substâncias químicas que exigem intermináveis testes para entrar no mercado. Na Comunidade Europeia, por exemplo, já é proibida a comercialização de cosméticos testados em animais, o que atinge também a importação desses produtos. Ou seja, o Brasil se não se adaptasse não venderia lá fora. Motivação talvez, não sejamos ingênuos, para afrouxar o lobby, do contrário possivelmente o projeto não fosse adiante.
Para os testes são utilizados além de camundongos, cães, coelhos, macacos e outros. Coelhos são fáceis de imobilizar e tem grandes globos oculares. Os produtos e seus componentes são pingados em seus olhos sem anestésico, causando hemorragias ou até cegueira. O animal pode ser ainda sacrificado para ver os efeitos no organismo como um todo. Macacos também são cobaias frequentes pela “semelhança” anatômica. É sabido, entretanto, que em etapas posteriores os testes precisam ser repetidos em humanos, posto não haver garantias de que organismos de diferentes espécies reajam do mesmo modo a certos produtos. Não fosse assim, remédios de uso veterinário serviriam para humanos.
O projeto, que agora vai para o Senado, é um passo de formiguinha para os melhores amigos do homem e um grande passo para a defesa dos direitos dos animais. Ou nem tão grande assim, pois foi incluída emenda que permite testes por até cinco anos para os componentes ainda não testados. Ou seja, a tortura seguirá, doravante sob o rótulo do avanço industrial. Comemoremos e lamentemos. Um dia, quem sabe evoluamos de fato. Quem tiver olhos verá!

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