28 de mai de 2014

Pelotas dos excluídos

É o título do novo livro de Adão Monquelat, lançado pela Editora Livraria Mundial e autografado na última quinta (22/05), na Bibliotheca Pública Pelotense. Como o subtítulo indica (subsídios para uma história do cotidiano), o autor apresenta uma coletânea de episódios até então, segundo seu entendimento, não contemplados pela história oficial.

Selecionando notícias da imprensa local, publicadas entre 1875 e 1888, apresenta-nos um rol de personagens socialmente marginalizados. Escravos, prostitutas, arruaceiros, ladrões ou gatunos (no dizer da época) transitam ante o leitor voyeur, que espia o dia a dia das ruas e da vida privada dos excluídos da história. Não preciso vender o livro aqui, pois é óbvio o interesse e apreço por quaisquer iniciativas que vão de encontro a visões preconceituosas ou imbuídas do velho ranço reacionário dominante.

Tão logo tive o livro em mãos, invejei um pouco não o ter escrito. Ao coletar material para o Dark City, figuras e figuraças de Pelotas, publicação que organizei e está no prelo para nova tiragem,  pesquisei alguns periódicos na BPP, percebendo então o potencial das tais fontes, ora compiladas no exemplar lançado.

À guisa de explicação introdutória, o pesquisador deixa claro que não fez uso de aportes teóricos ou referências. Demonstra antes certo desconforto para com a teoria e metodologia da história. E, diga-se de passagem, de fato há uma superestimação conceitual em teses e trabalhos acadêmicos, com capítulos teóricos por vezes mais elaborados do que o objeto da pesquisa. Evitar isso foi a opção do autor para o seu projeto. Aqui ressalvo, opinião minha, de que a história não prescinda desse alicerce chamado historiografia, sob o risco de tornar-se uma coleção de dados pretensamente objetivos, como faziam os positivistas do século XIX. O termo “história dos excluídos” notabilizou-se no Brasil com uma obra de 1988 da historiadora francesa Michele Perrot, que estudou operários, mulheres e prisioneiros. Seu arcabouço teórico foi de tal relevância que ainda é utilizado para instrumentalizar outras pesquisas. Outro referencial imprescritível é Vigiar e punir, de Michel Foucault, que mudou o modo de ver instituições como presídios, hospícios e, mesmo, escolas.

Não obstante a visão edênica de alguns registros do passado da cidade, o que também com razão denuncia Monquelat, devemos observar que existe uma produção que há algum tempo resgata a história escondida debaixo da saia da Princesa. Pelo menos desde a dissertação, do final dos anos 70, da historiadora Sandra Pesavento sobre a decadência das charqueadas frente à entrada dos frigoríficos, versões contrárias ao discurso hegemônico da opulência têm surgido.

Somente falando da temática negra, trabalhos como o de Caiuá Al-Alam e Lúcio Xavier têm marcado a exclusão na paleta. Mais recentemente, em 2012, foi defendida na USP uma dissertação intitulada Entre o fim do tráfico e a abolição: a manutenção da escravidão em Pelotas, RS, na segunda metade do século XIX (1850 a 1884). Apesar da preleção aqui feita, o livro de Monquelat vem somar esforços, do lado de fora da floresta do academicismo no resgate das camadas desfavorecidas da sociedade. E já promete segundo volume. Aguardemos.

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