10 de mai de 2014

Diálogos anacrônicos

Bacanal, Lovis Corinth, 1896

Na tipologia da crônica, enquanto gênero narrativo, talvez existam dois tipos. A datável e a perene. Toda crônica sonha virar livro. Entrar para o guines book como a mais lida, a mais fodona, a representante-mor do gênero literário mais perecível do mundo das letras. Mas o fato é que, via de regra, a crônica jornalística já nasce datada. Tanto porque as ideias e percepções mudam, assim como os gostos e as tendências. Uma crônica é datável por excelência quando se prende a elementos do cotidiano que deixam de ser notícia em curto prazo. No outro dia já era. Seja pelo viés político, social, artístico ou desportivo, ao comentar criticamente sobre algo de seu tempo, ainda que não possa ser taxado de alienado, o cronista gera uma letra morta para a literatura. É a morte de uma crônica anunciada. Enquanto registro histórico, entretanto, acaba sendo um material rico sobre as representações e o imaginário de um terminado período. 

O Carpinejar notabilizou-se com o tipo de crônica que tende ao genérico sem data de validade no rótulo. Só o tempo dirá sua duração, se vieram para ficar ou não. Temas como amor, ciúmes, relacionamento, machismo, timidez, entre outros, têm tudo para ainda estar em voga daqui a várias décadas. Já o Juremir Machado, talvez até por sua formação de historiador e jornalista, trafega mais por um realismo crítico-pragmático em seus textos. O Veríssimo oscila entre os dois estilos, embora suas crônicas literárias sejam na verdade prosas que mais se aproximam de contos sem narrador, com personagens, enredos e desfechos. Quase na íntegra construídas por diálogos, essa maneira sui generis de apresentar a crônica talvez esteja ficando anacrônica.  

Quando exercito a dita arte de ter opinião formada (ou desinformada) sobre tudo, procuro mesclar os dois modos, com algum humor ou ironia, quiçá com algum toque anacrônico de pessimismo, confesso. Trato também do efêmero, de algum assunto da semana, buscando algo de mais longevo na reflexão. Possivelmente é o que fiz até aqui nas linhas que o leitor acompanha. E quem me dera ficar por aqui, juro, só nessa incursão pelo pensamento teórico, abstrato e hipotético. Dialogar com o real, com o concreto, tá cada vez mais difícil. É falar com as paredes. 

Pra ser sincero, tô um pouco desanimado. Primeiro pelo demente esse que dizem que matou o próprio filho. Um médico! E não esqueçamos do dedinho da grande imprensa nisso. Afinal vende que é uma beleza.  E a hipocrisia nossa de cada dia desloca uma imensa energia aos justiceiros de plantão. De Datenas a Sheherazades é um júbilo só. Mil e uma noites de preconceitos com as próprias mãos. E o povão adora. Quer ver o Coliseu pegando fogo! E gota a gota, esvai-se qualquer noção de valor pela vida. Quer dizer se fosse pobre e falido podia trucidar? 

Agora mais essa da criatura que mataram a pau. E não vamos tão longe, alguns dias atrás se noticiou sobre um sujeito que foi pego furtando chocolates em uma loja em Pelotas. Por muito pouco não foi linchado em pleno centro da cidade. Tais tropeços no andar da civilização realmente desanimam. Aí alegam que ele tinha folha corrida. Mas vem cá, e não existe sistema jurídico constituído para tratar o indivíduo? Virou talião agora? Chega, né? Se ainda precisamos discutir esse tipo de assunto, não tem condição! Estamos mesmo no século 21? Nem vou ofender a Idade Média, pois se lá queimavam as bruxas, ao menos tinham o aparato ideológico da Igreja por trás. O que se faz por aqui, hoje, nem Marx nem Freud explicariam. É mais do que o subproduto da degradação do lupemproletariado ou a sublimação de impulsos sexuais reprimidos. Fosse antes um bacanal! É tosqueira pura e selvagem. É de um anacronismo crônico nauseante! 

Acho que na próxima vou ensaiar uma crônica das antigas. Uma bem anacrônica. Feita só de diálogos. E espero que essa daqui fique datada desde já.

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