25 de abr de 2014

Devolva depois de ler

Tem alguém pegando meu jornal. Tira direto da caixinha, de boa, só na caruda. Já reclamei. O entregador até se esforçou, dobrando todo o volume como um envelope. Não adiantou. O problema não está na entrega. O bandido da folha sempre dá um jeito. Talvez tenha carregado hoje e esteja lendo agora mesmo. Ocorre com mais frequência nos finais de semana, quando só busco mais tarde. Semana passada se repetiu no feriado quando foi outra vez subtraído. Justo na sexta, dia em que escrevo aqui e, portanto, guardo cópia impressa. Quem é você, leitor descarado? Jack Sparrow de barquinho de papel! Você sabe onde moro, prédio de grade cinza, defronte à escola.

Escolas e grades deviam se unir contra esse tipo de crime. As primeiras, didaticamente, deveriam ensinar a seus pupilos o que a religião e a família não forem capazes. Aquela coisa, tá ligado? Do certo e errado. Já as segundas, ao menos por garantia, protegeriam o meu, o seu e os nossos bens incomuns. Escolas e grades deveriam, aliás, ser incompatíveis na mesma civilização. Sorria, Zorro de letras impressas. Tô te filmando da veneziana e juro que chamo o sargento Garcia e toda a cavalaria.

Fiquei pensando que tipo de figura furta um jornal? Não é gurizada do colégio, já que atua principalmente em dias inúteis. Qual a moral? Instruir-se? Ficar por dentro das novas? Saber da política? Página esportiva? Será algum necessitado ou malandro? Frequentará a coluna social ou a página policial? Ao menos se devolvesse depois de ler. Cem anos de perdão, o caramba! Como assim? Não roubei. Pago por ele, não é brinde. Ponho no cartão, mas sai do bolso no fim do mês. Roubado não é achado. Vai dizer que pegou na calçada? Dá um tempo, Robin Hood!

Sou materialista. Apegado aos objetos pessoais. Não empresto livro, nem filme. Não levo jornal pro trabalho. Sou comuna desde que não precise socializar meus meios de produção intelectual. Não como queijo, mas fique longe do meu tofu. Quando temos uma coisa qualquer que seja levada indevidamente por algum larápio, sentimo-nos violentados, agredidos. Outro dia, o Maurício Pons escreveu por aqui sobre sua cota superavitária de ladrões pessoais. Vou tomar de empréstimo a sacada dele e dizer que também tenho minha plantação de vagabundos. E não vou dar uma de bonzinho... quem rouba é sem-vergonha, chulepento, desonesto e vagal.

Semana passada, abriram meu carro novamente. E olha que já foi duas vezes em Porto Alegre, uma em Pelotas e agora virei pato internacional. Foi em Montevidéu. Levaram uma mochila que deixei no porta-malas. Claro que dessa vez, eu, babaquara e rastaquera me superei, dando mole pro azar. A frente do rádio ficara na tal bolsa desde que saíra com ela antes. Que lástima! Naquela noite, ainda dormiria no automóvel, pois não havia mais vagas nos muquifos da ciudad vieja, lotada por conta do show de Paul McCartney - que estava ótimo como sempre. Nem preciso dizer que não preguei a vista. Parecia que a qualquer momento alguém mexeria no carro. Usaria uma mixa. Um pé de cabra. Um tijolo de seis furos. Até senti saudades dos inocentes furtos do jornal lá de casa, pero no mucho.


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