21 de mar de 2014

O dia do palhaço

Nunca gostei de palhaço. Não é metáfora. É literal. Tô falando de palhaço mesmo. Daqueles de circo. Carequinha, cara branca e nariz vermelho. E olha que hoje nem é o dia do palhaço. Antes que o leitor mais entusiasmado pelos profissionais brincalhões perca a graça, deixe que eu remende. Não tenho horror, apenas nunca achei graça. O que me trouxe esta reflexão à mente foi o temor que minha filha, agora com seis anos, sempre teve dos palhaços. Jamais lhe estimulei a acoulrofobia (sim, fiz a palhaçada de procurar o termo no google), porém desde cedo a criaturinha mostrou o pânico. Não faz segregação, seja de circo chinelo ou do Cirque du Soleil, não quer conversa. Pra ela nenhum é flor que se cheire e pronto.

Na minha época, tínhamos o Bozo. Parece que tá passando de novo. Vários artistas brasileiros interpretaram o tereuteuteu. Diz que um dos que fez o papel largou porque usava drogas. Sei lá. Assim contavam na escola. Mas medo, não lembro de sentir.

Ah, minto. Lembrei duma que rolou na garagem do prédio em que morávamos. Rafa tinha dois anos. Coloquei-a na cadeirinha no banco traseiro do carro e ela deu “tau-tau” em direção ao escuro. Perguntei pra quem tava abanando e respondeu, pro Patati. Putz! Naquela vez arrepiei. Segui sem olhar pra trás e sem comentar. Será daí que vem sua fobia? Não demonstrou medo. Eu sim. Bobagem. Até porque não acredito em visagem. Ah, o problema é que o medo é real. Afinal, medo existe.

Por essas e outras que entendo o tal terror. O visual dos loucos é meio trasheira mesmo, fala sério? Exemplos não faltam. Tem o It, do Stephen King, o mais assustador do mundo, tem sim, senhor. Tem o Northampton's Clown, que andava assustando as pessoas na Inglaterra, ano passado, tem sim, senhor. Tem o Coringa, o joker, o palhaço, tem sim, senhor. Tem o filme proibido do Jerry Lewis, tem sim, senhor.

Óbvio, tem o outro lado também. Tem a graça da fobia, como no episódio de Seinfeld em que Kramer se borra de medo. E tem a sensibilidade como no filme do Selton Mello. E agora, o Puddles. Personagem do artista multimídia Mike Geier. Identificado como Sad clown with the golden voice, o triste ficou conhecidíssimo da noite pro dia, interpretando músicas pop em versões pra lá de teatrais com sua voz de ouro. Aliás, o cara é tão criativo em suas performances, que em um de seus trabalhos anteriores fazia um show tipo imitação de Elvis sem imitá-lo. Apesar da voz imponente, as canções de rock eram cantadas sem a entonação, os trejeitos ou a indumentária característica. Com terno escuro e cabeça raspada, Mike incrementou o espetáculo com um anão, este sim, arrumadinho com macacão e costeletas pra fazer uma pontinha da imagem do rei. No pano de fundo, a gravura de uma caveira com topete completa a bizarrice.

Tem alguns vídeos mais fortes do artista, mas a maioria são bacanas. Pois e não é que a Rafa adorou os vídeos do Puddles e diz que não tem mais medo? Agora todo dia é o dia do palhaço lá em casa. Tau-tau!

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2 comentários:

Marciane Faes disse...

Coisas de inconsciente coletivo?...
Vínhamos pela RS239, quando ao avistar um circo armado, disse à
minha colega: "Circo, nunca mais, não, não é?!"
Ela disse que hoje só se fosse para assistir ao Soleil.
Na sua infância tinha odiado ser levada para o centro do picadeiro
por um palhaço.
Centro das atenções, desse jeito, nem pensar.

Marciane Faes disse...

Dois anos decorridos, na última terça, ouvi um buzinaço. Oh! Alguma novidade em termos políticos está sendo anunciada? Não! O Circo Metropolitano chegou a Três Coroas e se instalou a uma quadra da minha casa. Mais que com os palhaços do circo, seja onde for que se instale, minha primeira preocupação foi: espero que já não tenha mais animais.