28 de fev de 2014

Esse cara é ele?

Nos últimos dias falou-se bastante da nova campanha da marca de carnes Friboi, protagonizada por Roberto Carlos. O maior abatedouro do país, até trocar as bolas, tinha como garoto propaganda somente o familiar Tony Ramos. Apesar de acostumados a ver reclames sobre a venda patenteada de aves, com seus simpáticos mascotes galináceos, ainda provoca alguma estranheza ao consumidor ter uma grife de rês. Para quem não teve o prazer de degustar o comercial em azul e branco, o artista aparece em um restaurante com seus amigos de fé e, quando servidos, o camarada recebe legumes, ou coisa que o valha, e imediatamente diz: “não, não, o meu prato é aquele ali”, sinalizando uma porção bovina guarnecida pelas cores verde, amarelo (e vermelho também). “Você voltou a comer carne, Roberto?”, indaga o garçom. “Voltei.” É quando entra o famoso refrão “eu vooolteiiii...” A infâmia da peça publicitária desagradou a carnívoros e veganos. O tiro saiu pela cloaca causando grande repercussão negativa nas redes sociais, ao ponto de a empresa mandar bloquear os comentários no YouTube.

Dizem que RC era vegetariano há mais de 30 anos e agora teria novamente aderido à proteína animal. Detalhe, no comercial ele não aparece comendo carne, somente ri muito com seus convivas ante tão espirituoso gracejo. O cachê do cantor não foi divulgado, mas alguns comentaristas especulam algo entre R$ 6 e R$ 10 milhões. O cineasta Fernando Meirelles tuitou que o valor teria sido de R$ 25 mi. Não vou repetir aqui o que muitos já disseram, que ele vendeu a alma, porque nunca o vi como defensor legítimo de qualquer ideia digna de citação. Ou seja, se ele não come ou não comia carne parece mais uma de suas excentricidades maniáticas do que uma convicção ideológica. Ou seja, pagando bem ele tá cagando azulzinho pro que vão achar dele e daqui pra frente nada será diferente. Afinal, desde a Jovem Guarda, sempre foi vendido ao maior poderio midiático do Brasil. Tampouco serei ingênuo de acreditar que todo artista consuma os produtos que divulga. O que pegou muito mal na tal estratégia foi o aroma exalado de hipocrisia. Mesmo quem não é vegetariano pode sentir um mal-estar no modo como se serviram do assunto. Em tempos internéticos, cada vez mais é sabido os ingredientes que compõem a indústria carnívora. 

As pessoas têm todo o direito de continuar comendo carne por não desejarem abrir mão dos deliciosos prazeres que a gastronomia oferece. Mas é seu dever fazer dessa escolha uma opção consciente. Foi-se o tempo em que não se sabiam do que eram feitas as salsichas. Ou mesmo, como apregoou Paul McCartney, fossem as paredes dos abatedouros de vidro e todos seriam vegetarianos. Na mesma rede em que podemos ver o comercial, há muito material sobre o abate animal (dito humanitário) que movimenta bilhões. No Brasil um bovino é morto por segundo. Na mesma porção de tempo, um frango e meio (vamos fracionar o bicho também na estatística) vai pra panela.

No mundo das ideias goela-abaixo, animal é coisa. É medalhão. É janela. É ripa. Fraldinha. E mesmo quando carrega a anatomia aos cardápios, acaba coisificado. Uma coxa de frango deixa de ser a perna de um bicho? E o coração? Ah, coraçãozinho é uma delícia! E se mexo no abelheiro, é porque “esse cara” que causou espécie foi o Roberto Carlos. Talvez agora ele passe a ser o Rei do gado. E que tudo mais... vá pro inferno!


Nenhum comentário: