19 de jan de 2014

Rolezinho, diversão e arte

Uma coisa é certa. Ficar na periferia se sentindo fora do sistema não muda nada. É como se começa a questionar a sociedade de castas no Brasil. O desconforto é de todos. Estamos dando uma voltinha social sem volta no país. Foi o que rolou com os movimentos de junho de 2013. É assim, agora, com os rolezinhos de shopping, e não será diferente na Copa. Não vai dar pra fingir por muito tempo que desigualdade social é papinho de esquerdista. Existe um apartheid econômico e cultural real. Vai negar? Pois, pegue um menino sujo, de chinelinho encardido (sim, eles ainda existem) e largue dentro de um centro comercial de luxo em uma cidade grande pra ver o que acontece. Ah, mas é um lugar especial pra consumo e lazer com a família e não pra pobre dar suas voltinhas, algum gerente dirá. Pois dê, então, ao nosso hipotético desafortunado, uma grana pra comprar um lanche feliz ou um tablet de última geração. Ainda assim suspeito, não vou ser injusto, que o pequeno comprador seria convidado a se retirar do templo dos perfumados frequentadores. Muitos, consumidores de coisa nenhuma.
Charge de Vitor Teixeira
O problema é que quando milhares de jovens (pobres ou não) organizam-se através das redes sociais para ir aos shoppings por diversão e manifestação (não para furtar), fica complicado ignorar. Fica mais difícil virar o rosto enquanto seguranças e policiais fazem seu trabalho. Profissionais dignos, diga-se de passagem, mas que tantas vezes advém de uma infância, por ironia, igualmente pobre. E as autoridades que apelam para a truculência ante a pressão que recebem dos “cidadãos de bem”, alimentam o descontentamento com um fast food de contradições. Não tem saída. De nada adianta nossa intelectualidade apregoar que são movimentos apartidários, sem uma ideologia definida ou não imbuídos da consciência de classe. Ou ainda, que antes se prestam ao oportunismo anarquista ou mesmo a uma contraofensiva totalitária. O fato é que a classe baixa quer ir ao paraíso. Braços dados ou não. E se a canção que faz a hora não foi composta por nenhum Vandré é sintoma, não causa. O paupérrimo funk ostentação é a trilha de quem também quer a bebida que pisca, pisca, pisca. Ou vão me dizer que o Rei do camarote agrega menos na pobreza cultural? Há uma crescente insatisfação dos que não nasceram de brucinho pra lua. O Brasil está avançando nas questões sociais. A classe média melhorou de vida. Que bom. Mas não precisa ser sociólogo pra entender que os de baixo também querem subir. Necessidade e vontade. Necessidade e desejo já dizia outra música. Agora tem comida no prato? O contrato social previa pão e circo, não é mesmo? Inteiro e não pela metade. Como educação ainda inexiste no país do futebol e cultura não é o nosso forte, seria demais esperar que a molecada pedisse balé, diversão e arte. Propostas como rolezinho na livraria, no hemocentro, no Congresso não fazem sentido ainda eles. Aí, o impulso não pôde ser outro senão procurar saída para qualquer parte. Saída para dentro do sistema e de preferência com ar-condicionado e praça de alimentação. Nem que seja só pra dar um rolezinho.

2 comentários:

Anônimo disse...

Mas que o dito comercial tá sem graça é fato,tanto é que nem é tão veiculado como o outro (do Toni).
Mas... Te rendeste ao tema.

Mara

automatic likes instagram disse...


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