17 de out de 2013

Sobre mudanças e permanências

Que algo novo ocorra sempre é a ilusão que nos faz continuar dia a dia a repetir coisas velhas. Tô de muda. A sensação das tralhas sendo encaixotadas é familiarmente estranha. Durante a infância mudei dezenas de vezes. Com o pai zelador de edifício não parávamos muito em cada doce lar. Não chega a ser dramático. Melancólico talvez. Fazer a limpa. Selecionar o que guardar. O eco nas peças parcialmente esvaziadas pegando desprevenido pela orelha. O desfile de roupas desocupadas de nós mesmos. O silêncio dos aparelhos desplugados aumentando o volume dos pensamentos no 3 em 1 que é o nosso translado pelo tempo. Mas o assunto aqui é espaço.

Tô de muda sem sair de casa. Como pode isso do todo conter partes do seu mesmo tamanho? Foi no História da eternidade, do Borges, que li algo assim. Que o conjunto dos números inteiros é tão infinito quanto o conjunto dos números inteiros pares. E o primeiro conjunto conteria o segundo, de idêntica grandeza.

Somente os quartos serão mudados. Triangulação de dormitórios. Rola um estranhamento ante o conjunto da casa que fica inalterado. A mesma mobília disposta de outro jeito dá ideia de estar em outro lugar que segue sendo o mesmo. Como se já o contivesse. A soma de todas as partes contendo a parcialidade do todo é de difícil compreensão ante nossa visão redundante de caixinha 3D.

Nas várias separações do pai e da mãe também ocorriam algumas mudanças que nada alteravam. Depois voltavam. E separavam outra vez. Não raro, mais tarde se encontrava alguma fração de nossas vidas na casa dos parentes. Ei, não tínhamos uma televisão igual aquela? Sim, é a nossa. E aquela geladeira? Nossa. Compramos tudo de novo.

Para Lavoisier tudo se transforma e nada se perde. Estava certo e errado. Com as mudanças perde-se energia. E que trabalhão dá qualquer reforminha que se faça, ainda que somente troquemos os incômodos de lugar. O problema é que a sensação de conforto vem acompanhada do enjoo das novas instalações e volta tudo a ficar monótono e sem graça em pouco tempo. Tempo é falta de espaço.

E por acaso todas as modificações não são assim? Não temos garantia que mude de fato. As mudanças só mudam de endereço. Espanador. Caixa de papelão. Plástico bolha. Espanador novamente e tudo igual em outro lugar. O exemplo que temos de mais concreto é o ciclo da água. Transpira, evapora, condensa, sublima e precipita. É o eterno retorno o que nos faz dar voltas e mais voltas em torno do Sol sem sair do mesmo lugar.

E toda essa matéria que tem por aí? E todos os átomos da primeira roda inventada pelos nossos cabeludos ancestrais que resolveram mudar de caverna levando tacapes e pedras? Ainda giram em algum lugar? Tudo é reciclável a seu tempo.

Tô de muda. Estar de mudança é uma impossibilidade lógica. É permanecer, ficar, mover e sair ao mesmo tempo. Eu disse tempo? Ao mesmo espaço.

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