25 de out de 2013

Porta dos fundos



De onde veio essa de dizer que alguém é burro como uma porta? Numa época politicamente correta, de tanta patrulha e cuidado antibullying não podemos admitir uma coisa dessas. Que de errado fizeram as portas? Presas no crucifixo de dobradiças sobre o rude lenho de seus marcos e batentes inocentes. Pobres vítimas enclausuradas a sete chaves ou postas na rua a todo instante sem qualquer explicação. Seu único direito é o de ir e vir em meia lua. Fechadas sobre si mesmas ou invadidas sem pedir licença. Ao contrário da roda, que sempre foi aclamada como a mãe de todas as grandes invenções (o fogo não vale, pois foi apenas descoberto), a porta foi uma dádiva da natureza para os nossos primitivos ancestrais cabeludos. Imagina a perplexidade da turma ante uma montanha reta de pedras. “Mas... e se ao menos tivesse uma...” Faltava a palavra e se olhavam. “Se pelo menos houvesse uma...” “Saída?” “Não, uma entrada”. O que precisavam era uma saída pra dentro. Uma porta. Nas cavernas podemos chamar de porta, né? O buraco por onde se passa é também uma porta ou somente sua tampa pode ser chamado assim? Não sei.
O que importa é que a porta não é tão burralda assim. Evoluiu com a humanidade. E das caves passou às casas, aos templos, às pirâmides. Associaram-se à roda e trilharam outros caminhos dos vagões de trens aos automóveis, aviões, ônibus espaciais. De sanfonadas a giratórias. Pantográficas e de elevador. Da frente e dos fundos. Social e de serviço. Tem uma crônica do Veríssimo em que imagina um disco voador chegando com etezinhos menos ligados que nós. Em sua nave havia porta, mas não haviam inventado a dobradiça. A cada entra e sai tinham que pregar ou soltar a abertura.
Metaforicamente a porta também se prestou a aplicações cults, inclusive servindo a alegorias complexas e sofisticadas. A caverna do Platão... Não, a caverna de Platão não tinha porta, era uma fenda. Em Ali Babá e os 40 ladrões temos a primeira porta encantada. Respondia ao comando de voz, “Abre-te Sésamo”. O Caetano ia xingar de burro, que é tudo burrice. Coisa do New York Times. Então vou citar a banda americana The doors. Baseou seu nome no título do The Doors of Perception, de Aldous Huxley, que havia se inspirado em frase de William Blake, publicado em The Marriage of Heaven and Hell: "If the doors of perception were cleansed, everything would appear to man as it is: infinite". Na versão nacional, “se as portas da percepção fossem abertas, tudo apareceria como realmente é: infinito”.
As portas estão cada vez mais espertas. A da geladeira apaga a luz. A do micro-ondas controla o acionamento do aparelho. A do carro avisa se está aberta. Avisos de não perturbe podem ser pedidos de socorro, já pensou? Até existe a expressão porta inteligente, aquela tipo de shopping, que se abre automaticamente quando estamos a dez centímetros de quebrar o nariz. Quem é burro mesmo? Baita injustiça a porta ser relegada a impropério. É uma grande burrice. O mesmo que falar pra uma parede!