19 de out de 2013

Enquanto dure

Há um poeta que completaria 100 anos se fosse eterno. 
Sempre achei estranhas estas efemérides de nascimento, quando se comemoram aniversários longevíssimos. Cem anos do fulano de tal. Cento e sessenta daquele outro. Sei lá. Fica com uma cara de tarde demais, mas celebremos porque hoje é sábado. Estamos aí pro que der e vier. Pro amor e pra desilusão, afinal de contas é o centenário do poetinha da paixão. Porque se hoje é sábado, ontem foi sexta, depois será domingo. Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes nasceu em um domingo, 19 de outubro de 1913. E antes disso? A eternidade desde sempre. E depois? Há essa sensação angustiante na comemoração fantástica dando trâmites por findos. Hoje é sábado!
Desde seus primeiros poemas, Vinicius demonstra uma inquietude com a vida cheia de graça que vem e que passa.
Um olhar para trás que aparece disfarçado, sublimado na sua ânsia por viver tantas vidas em uma. Não foi à toa que se casou nove vezes. Poeta, poetinha vagabundo. Quando foi “aposentado” do Itamaraty pelos militares, alegaram isso, que era boêmio e vagabundo. A vida é pra valer, mesmo com toda fama, com toda cama e toda sanha. E foi levando suas rimas na manha e dourando a tal pílula predestinada, eterna namorada. 
Em seu primeiro livro, publicado aos vinte anos, O caminho para a distância, suas reflexões eram vias de mão dupla em que tanto olhava para o futuro quanto para o passado. Dava seu grito para o infinito sobre uma sufocação que sentia ao pensar os próximos vinte anos. “E esta experiência das coisas que aumenta a cada dia, medo de ser jovem agora e ser ridículo, medo da morte futura que a minha juventude desprezava, medo de tudo, medo de mim.”
Em Desde sempre, do mesmo livro, colocou seu lirismo em um banco de cinema, vendo à sua frente, nas imagens projetadas, um drama de amor ao mesmo tempo em que ouvia, do escuro e silencioso fundo da sala, a comédia da carne nas vozes sussurradas de um casal no amasso. No poema Fim, indagava o seguinte: “Será que cheguei ao fim de todos os caminhos e só resta a possibilidade de permanecer? Será a Verdade apenas um incentivo à caminhada ou será ela a própria caminhada? (...) Será que eu cheguei ao fim de todos os caminhos?” Talvez considerasse seu caminho triste no silêncio de depois. Em outro texto, imaginando-se em idade avançada, descreveu-se tal qual o eterno velho que nada é, nada vale, nada teve. O velho cujo único valor foi ser o cadáver de uma mocidade criadora.
Havia dias em que o poeta ficava pensando na vida e sinceramente não via saída. Que a gente mal nasce e começa a morrer. Sei lá. Em Vazio, escreveu “E volto à alma vazia e silenciosa que não acorda mais.” Imagem que se completa de certo modo em Suspensão, “Fora de mim, fora de nós, no espaço, no vago.”
Em 1998 Vinicius de Moraes foi anistiado pela Justiça. Em 2010, promovido a Ministro de Primeira Classe da Carreira Diplomática. 
Falecera em 1980 e hoje... é sábado!

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