21 de set de 2013

Arqueologia do gaúcho

Estátua do Laçador e seu modelo Cortês
O gaúcho heroico está para o gaúcho histórico assim como o Paixão Côrtes está para o Laçador. A reapresentação do real serviu de modelo às façanhas de quem adula a própria história pra ficar bem na foto ou na estátua. A tradição tão linda da qual alguns se arvoram guardiões é uma invenção do século 20.

É sabido, e mesmo contado com orgulho, que o tradicionalismo nasceu em 1947 com a tal história do fogo crioulo furtado da Semana da Pátria pelo jovem Côrtes. As origens do grupo fundado por ele seriam legitimadas por outros movimentos que ocorreram cerca de um século antes, encabeçados pela elite cultural do chamado Partenon Literário. Até aí tudo bem. É o que reza a cartilha do bom tradicionalista, amém.Só isso não bastaria pra ser considerado forte, aguerrido e bravo. Cavando mais fundo na arqueologia do nosso principal tipo social,devemos indagar algo sobre a citada mitificação do gaúcho em meados do século XIX. A que segmento social servia a elite intelectual que o glamorizou com o pala do paradigma heroico?

A colonização tardia do sul tornou possível engendrar um pensar-se socialmente somente no século XIX. A tarefa confiada aos letrados pelas classesdirigentes não era fácil, pois haveriam de conciliar as finesses de um romantismo parisiense déja vu, importado pelos abastados charqueadores com a tosqueira dos estancieiros broncos em seu estilo galpão, aguardente e sífilis. Foram eles que dotaram o gaúcho, enquanto gentílico - designativo do rio-grandense, de umcaráter de honra, liberdade e igualdade trajando-ocomo o centauro dos pampas.

Com o cercamento dos campos a partir de 1870 e o assentamento do peão, que aceitava sua sujeição em troca de beira e fogueira, advinha a necessidade de um discurso homogeneizador que mascarasse as diferenças sociais entre uma aristocracia rural e os seus agregados servis. A cuia de mão em mão partilhada pela peonada com o patrão pintava o quadro necessário ao pacto social.Aos olhos dos grandes proprietários eles também serviam por suas habilidades em batalha, quer contra os castelhanos, quer contra os imperiais na guerra farroupilha. À gauchada era dada a contrapartida da pilhagem dos despojos.

Escavando um pouco mais no campo histórico encontramos mais abaixo o gaúcho-pária. Antes do sedentarismo, próprio às melhores condições oferecidas pela estância, aparece um nomadismo que caracterizava o homem sem lei, nem rei ou religião. Era o vagabundo ou “vagamundo”, enquanto sinônimo de gaudério (vide Aurélio e perdoe a rima). Trata-se do tipo social que andava pelos campos a seapropriar ou contrabandear os gados que procriavam livresdesde o desmantelamento das Missões Jesuíticas. É esse o gaúcho descrito pelos cronistas e viajantes da época.
Na fase de transição já encontramos relatos apaziguadores como o do francêsNicolau Dreys:

Gravura de Jean-Baptiste Debret - 1829
“Sem chefes, sem leis, sem polícia... os gaúchos não têm da moral social senão as ideias vulgares, e sobretudo, uma sorte de probidade condicional que os leva a respeitar a propriedade de quem lhes faz benefício ou de quem os emprega, ou neles deposita confiança.”


Como em história devemos ler as fontes no contrapelo duro, seria errado deduzir o contrário? Que aos que não lhes fizessem o benefício de empregar poderiam atacar a propriedade conforme suas noções vulgares de probidade sem regras?

Avançando um pouco ainda em nossa prospecção arqueológica no tempo, achamos mais claramente esse ímpeto desordeiro do gaúcho. É nas linhas deAzara e Isabelle que aparece com um viés mais abarbarado e propenso ao ilícito. Saint-Hilaire narrou no período de transição à independência e incorporação da Banda Oriental como província Cisplatina que o gaúcho se aproveitava da desordem própria da reorganização para fazer circular o gado em contrabando pelo Prata.Segundo Augusto Meyer, que pesquisou sobre o gaúcho histórico, José de Saldanha em seu Diário resumido, de 1787, já registrava o vocábulo de modo pejorativo num contexto de fronteiras móveis:

“De um e outro lado deste passo, assaz bom, e digno de passagem de carros, ou carretas, se as vizinhas coxilhas o permitissem, encontramos destroçados ranchinhos e vestígios de coureadores e ‘gauches’ do campo.

Sobre o termo explicou que “gauche” seria “palavra espanhola usada neste país para designar os vagabundos ou ladrões do campo que matam os touros chimarrões, tiram-lhes o couro e vão vender ocultamente nas povoações”.

Tal visão é corroborada pela descrição de José Torre Revello, em 1790, em que chega a propor a criação de uma milícia que “persiguiese y arrestase a losmuchos malévolos, ladrones, desertores y peones de todas castas, que llamangauchos o gauderios.”

Antes deles, havia os índios, e antes dos índios, nada. Muito menos o Laçador do Caringi.


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