19 de ago de 2013

Tantos nomes em um

Finalizo o livro Dark city que organizo sobre personagens obscuros, excêntricos e até marginalizados da história pelotense. Um médico, dois escravos, três poetas e vários mendigos são colocados no foco da luz negra sob o palco da bicentenária Princesa. Atenderam ao chamado diversos intelectuais da cidade que coletaram alguns famosos, outros anônimos, tipos representativos da vida tal como ela é em suas idiossincrasias e misérias. Aguardem o lançamento em breve.
Um dos personagens retratados na coletânea, quem indicou foi o historiador oficial da cidade, Mario Osorio, ainda no começo de 2012, pouco antes de ser implacavelmente cercado por aquela com quem todos nos encontraremos cedo ou tarde. Sugeriu o professor que eu lesse Memórias de um rato de hotel, que colocava à disposição. Não cheguei a pegar o livro. Não deu tempo.
Publicado em 1912, o volume foi relançado em 2002, o qual comprei pela internet na semana passada. Narrado por um certo doutor Antônio, que seria o pelotense Artur Antunes Maciel, conta sua história desde que deixou a cidade indo para a então capital do Brasil, Rio de Janeiro, onde passou a praticar furtos em hotéis em que se hospedava. Tirava daí o sustento para sua vida de boêmio e frequentador de prostíbulos. Com redação impecável na forma e fascinante no conteúdo, supõe-se ter sido escrita pelo famoso cronista João do Rio. Buscando novamente na rede, encontrei notícia sobre a filmagem de Tantos homens em um, ficção romanceada, baseada nos relatos do doutor Antonio, envolvido com outra personagem do autor carioca, de uma peça de 1915.
João do Rio era o pseudônimo do jornalista e escritor Paulo Barreto. Assim como doutor Antônio, ou Artur Maciel, Barreto usava vários nomes protegendo sua identidade. O larápio de casaca, por sua vez, empregava toda sua astúcia para aplicar seus golpes nos hotéis da Belle Époque. Era uma espécie de anarquista, que desejava romper com os valores de seu tempo e empreender toda sua energia em obter os recursos ilicitamente angariados que trocava pelo prazer com as mulheres de má vida.
Teria sido preso em 1911, morrendo no ano seguinte num dos cubículos da Casa de Detenção. Para o historiador Jury Antonio Dall’Agnol, que pesquisou sobre a obra em questão, Antunes Maciel representava um desafio para a escrita de João do Rio. O sagaz golpista habitava dois mundos distintos dentro da mesma sociedade. Tal qual o médico e o monstro, o doutor Antônio, a flanar e afanar pelas ruas do Rio, carregava a miséria social e moral tanto quanto expressava as fineses e os bons costumes de suas origens nobres de pelotense bem-nascido.
Não se sabe de muitos exemplares da referida primeira edição do livro e fiquei pensando se mais uma delas não seria a que Mario Osorio colocara a minha disposição. Dirigi-me então ao Liceu, para onde foi doado o acervo bibliográfico que pertenceu ao historiador, ainda indisponível ao público. O prédio, aliás, ironicamente fora doado pelos Antunes Maciel para criação da primeira Faculdade de Agronomia. Mas essa já é outra história. Outro mistério que mais cabe a outros ratos, os de biblioteca, desvendarem.

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