30 de ago de 2013

Graffiti e Ilustração




Desde as cavernas que não podemos ver uma parede dando bobeira que não resistimos a pôr nossa marca. No princípio, mais do que adorno, era objeto de adoração. Representava caçadas de bisões e combates travados com a natureza pela sobrevivência contra mamutes e tigres-de-dente-de-sabre. Atire um osso pra cima, se cair é seu. Uma odisseia pelos espaços vazios. Muito, muito tempo depois deixar seu recado por aí faz parte da supervivência urbana pós-moderna.

Há alguns dias noticiou-se por aqui que o grafiteiro Jotaa chegou à Secult, Secretaria de Cultura de Pelotas, solicitando para pintar o sete. Literalmente, pedia para fazer sua arte nos tapumes que envolvem o Theatro Sete de Abril, atualmente em reformas. Não apenas foi autorizado, como rolou cronograma para revezar o mural temporário com outros artistas. Além de Jotaa, Bruna Britto e Bero Moraes dividiram a primeira ocupação visual. Apesar de esperar que não dure muito o telão propiciado à gurizada, o que significaria demora nas obras de restauro, vi ali um bacana exercício de cidadania. Ainda há muito preconceito com esta forma de expressão artística chamada graffiti. Assim mesmo, grafada do plural italiano de grafito, com origens que remontam ao Império Romano. Mas não vim aqui mostrar ilustração de enciclopédia on-line, até porque sempre tem um querido pra explicar a diferença entre grafitagem e pichação. Por Deus, não vou repetir essa! Ainda mais que lembrei da excelente cena de A vida de Brian, do Monty Phyton, em que o aspirante a Messias é pego por um centurião com o pincel na mão, escrevendo nos muros do palácio, “Romans go home!” Só o trocadilho em inglês bastaria, não fosse a lição de latim dada pelo soldado a um deslize cometido na língua morta e a pena aplicada: reescrever a frase cem vezes no paredão.

Veja bem! Colocando o texto assim, na leveza da aerografia, não pense o leitor que o assunto seja coisa de guri. Até porque se não falarmos, as pedras já falaram. Tem muito camarada com curso superior de artes plásticas ou designer atuante na cena. Claro que grafitar prédios públicos ou privados sem autorização é contravenção e colírio no afresco dos outros é spray de pimenta. O prédio da Academia de Letras que há pouco, antes da bela reforma, quase tinha mais letras por fora que por dentro e é exemplo do que jamais deveria acontecer. A legítima contestação é aquela que desafia os valores estabelecidos sobre a realidade social e humana em seu estado atual da arte. Os trabalhos defronte ao teatro, com a figura ajoelhada segurando o crânio shakespeariano; a mulher, que me fez pensar na princesa desnudada ante as máscaras teatrais e as caveiras neosprayssionistas com os dizeres “chora agora, ri depois” expõem a falta que a casa de espetáculos faz à cidade.

Dos muros da Sorbonne em 68 aos nossos “abaixo a ditadura” há mais que simples poluição visual. De Vallauri a Juneca. De Basquiat a Banksy ninguém vai negar que é isso ARTE com letras garrafais!

O livro Dark City que organizo sobre personagens à margem da história oficial de Pelotas, do qual venho fazendo book spoiller ou teaser por aqui, será quase todo ilustrado, ironicamente em escala de cinza, com material proveniente do graffiti. Aguardem. Enquanto isso, não deixe de prestar atenção nas imagens que ilustram a city.

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