30 de ago de 2013

Sobre futebol e escrita

Que tanto falam de jogo de bola? Sinceramente não sei. Não gosto de futebol. É falta grave? Pode cobrar. Eu me escanteio no texto. Dou carrinho nos parágrafos. Faço trocadilho de mão. E se bobear me atiro na pequena área da crônica, gritando pênalti, é pênalti! Passada a firula, lasco uma cusparada no rodapé e sigo, meio mancando, olhando pra baixo. E se todo jogador é um fingidor, minto a dor que deveras sinto. A prosa escrita é meu campinho, é onde faço meus dribles e balãozinhos, contudo nada sei de futebol. Mas vamos em frente que só termina quando acaba. Estou correndo atrás do cursor outra vez. O editor é o bandeirinha. O revisor, o torcedor. O leitor é o juiz. E antes que me dê cartão vermelho, arrisco e meto essa bomba de longe. Simplesmente não consigo me ligar no passatempo mais amado do Brasil. Não é posar de craque, nem salto alto de cabecismo pedante.

Até admiro quem curta e torça. É um baita hobbinho. Tem muito cabeça por aí que tem seu time do coração sem deixar de lado a produção cerebral. O Veríssimo é colorado. O Fischer também. O Gessinger e o Eduardo Bueno, gremistas. O David Coimbra, o Carpinejar, o Mário Corso, torcedores de carteirinha. Mas que tanto gosta essa gente de falar de futebol? Eu não consigo acompanhar os campeonatos, escutar os comentários, prés, durante e pós jogos. Me falta é condicionamento intelectivo. Não tenho cancha pra tanto.
Olho no lance! Eu explico. Meu pai e o pai de seu pai não estavam nem aí pra jogo e não fui criado nos clãs de camiseta alguma. No chute a gol ficava na goleira, até levar bolada na cara. Na escola só entrava no sorteio dos times na disputa pela última vaga.

Não dá nada! Estou no banco da reserva. Dos que já desistiram do esporte. O Mário Gayer do Amaral me escreveu essa semana querendo saber minha opinião sobre o futebol pelotense. Não vai rolar, professor. E não é marcação minha. Sou perna de pau no tema. Em minha defesa aviso que foi o próprio Mário que chamei à sala de redação do livro que organizo e tenho comentado por aqui. Fez a finta em boas crônicas com toques sobre o Marcola, o Galego e o Cardeal, figuraças da cidade. Vale lembrar que ele já produziu, em troca de passes com Sérgio Augusto Gastal Osório o História dos Brapéis, disputado no sebos da cidade.

De minha parte, arrisquei as canelas ao resgatar, para a dita coletânea das figuras, a história de um jogador que fez fama nos gramados e ruas da Dark City. Fora dos campos, Bedeuzinho consagrou-se como personagem popular em Pelotas. Criou-se o mito de que ele teria sido o primeiro jogador de futebol a ter um automóvel na cidade. Houve um período de real prosperidade, isso é incontestável. Mais pro fim, entretanto, sempre uniformizado no seu terninho branco amarelado, driblava o povo entre as ruas. Solitariamente, acompanhado por um aceno ou outro da torcida transeunte, era certeiro em suas tiradas de simpatia e bom humor.

E quando alguém gritava, “aí, Bedeu, vamos ganhar hoje?”, conta-se que ele sinalizava positivamente com o polegar, como quem acreditava que estaria em campo outra vez. Que fim levou e outros detalhes será contado no volume que logo será lançado e, enquanto isso, sigo tentando entender que tanto esse povo gosta de futebol.

Um comentário:

Marcyus Luidi disse...

Maravilha de texto. Super criativo. Parabéns meu amigo!