19 de jul de 2013

Lobo da Costa, sem noção

Há dias, talvez meses, sei lá, queria escrever algo sobre o Lobo. Mas não escrevi. Disseram que correria enorme risco, pois alguns estudiosos consideram-se os donos do poeta. Não é o único, aliás, que sofre dessa chaga por aqui. Entrementes, digamos que se, por acaso, escrevesse, faria um texto mais ou menos assim, em meio a delírios da madrugada. Sem pretensão nem responsabilidade alguma juntaria algumas impressões sem estudar. Não visitaria a Bibliotheca Pública em busca de trechos perdidos. Nada traria de novo.

Não apresentaria inéditos que jamais encontrei em qualquer sebo da cidade. Não diria que o tal moço escritor morreu jogado às sombras da sociedade local, na hipocrisia da verdade nua e rua. E não julgaria a urbe que o envolveu com seu abraço de tentáculos xadrez. Não procuraria saber se já estava morto quando chegaram. Ou quando andava zumbindo pelas esquinas em desvarios de uma dor sem remédio. Dor incapaz de deitar leito em hospital, ansiando pelo alívio da fuga. Poeta de dores em que só coubessem os porres de amores.

Talvez ele pensasse que só mesmo a morte lhe restasse como possibilidade de saída. Procurada numa esquina qualquer em que um olhar de neblina fosse virando fumaça. Evitaria dizer qualquer coisa dissertada em tratados pelos donos do poeta que eu não leria tampouco. Citaria muito menos qualquer biografia maldita. O abismo que separa a ficção da literatice eu deixaria na gaveta. Não buscaria teses acadêmicas sobre seu romantismo sulino ou outras coisas de estilo.

Nada, nada sobre suas leituras, vida pessoal, trabalho. Eu apenas indicaria o que todos já sabem. Que o poeta finou caído na rua. E quem sabe não teria sido sua vingança à indiferença? Mas isso talvez não dissesse. Nem inventaria um grito de fera que teria açoitado o ar austero de um dia nascente. Somente o poeta ao rés do chão. Bem lá na Santa Cruz, mesma rua das máquinas incríveis que nem mesmo Júlio Verne sonhou. Não pesquisaria na internet. Nem andaria pelas streets virtuais arrastando o mouse pelos caminhos de sua fuga da Santa Casa Santa até o ponto final do anverso da sarjeta.

Estaria vivo quando o despojaram? Eu não elucubraria sobre o que sequer lhe importava, pois desnudado de si estava. Lembraria dos versos cantados pelo Vitor ao Jo(a)quim do avião reinventado em Pelotas e citaria talvez que não havia nada mais triste que um homem morrendo de frio. Daria apenas mais um tiro na prosa poética. E já não restaria vestígio da flor dessa esperança. Digamos que se, por acaso, escrevesse, não perguntaria quem o deixou ali para cumprir seu destino. Muito menos para dizer que só restou um cancro surdo de vozes da razão. E repetiria que ele não guardaria desejos de vingança, de ódio, só a indiferença no seio de crenças suas.

A vida dura pouco, rojada ao lado do chão. Ao lado do lodo em que vivemos. E sobre as cinzas do amanhã se colocaria o poeta erguido, quando os tempos de novo o trouxessem numa efeméride qualquer a estas plagas. E o tempo que corrói a pedra bruta também destruiria os frutos da memória. E se um dia nas praias do futuro, rolasse o cadáver do poeta descrente, sepultado junto à margem da calçada, talvez, mas somente talvez, eu escrevesse algo sobre o tal escrevinhador dos entendidos de Pelotas. Sem noção alguma, claro.

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