26 de jul de 2013

Assunto de bandeja

Qual a boa? Essa semana tá difícil. A gente acha que nunca vai faltar assunto. E não falta mesmo. Mas sabe quando não se quer falar sobre as últimas. Tem dias que a conversa de elevador desce e nos acompanha por onde quer se vá. Do frio já disse tudo. Vixi Maria! Help! Quem poderá nos defender? Não é moleza ensebar a crônica com um friozão desses à espera da visita de uma ideia criativa. De um milagre qualquer. De um parágrafo heroico que nos salve de contar toda vida a mesma história.

E a visita do papa, hein? Sempre que ouço falar no sumo pontífice vindo ao Brasil, lembro de 1980. É como se um pedaço de mim estivesse pairando sobre aquele ano. Uma eterna saudade de meus oito anos. É como se o verdadeiro papa fosse só aquele. O primeiro, que era o II. No mesmo ano fui ver o Superman II no cinema. Mesma coisa, Super-homem de fé sempre será aquele, o que depois caiu do cavalo. Não adianta refilmarem. O primeiro herói a gente nunca esquece. Não fui ver o João de Deus naquele ano. A mãe e o pai sempre tiveram muito medo de ajuntamento de gente. Uma professora contou que levou os filhos amarrados pelo pulso em fila indiana por receio de perder os piás na aglomeração.

O ano de 1980 para mim teve 36 meses. Foi quando aprendi a ler, a ver as horas e a contar os meses no calendário. Mas me atrapalhava um pouco. Assim, tem coisas de 79 e 81 que guardei como se fossem todas do meu tríplice ano. O laboratório espacial Skylab. Aquele que caiu no mar. Juraria de pé junto que foi em 80. Que nada! Um ano antes. Ainda lembro bem de alguém falando para o pai que era um perigo. Se um tijolo caísse na cabeça da gente matava, imagina só uma estação espacial, dizia ele. E viajo na margarina visualizando o homem de aço voando para segurar os pedaços do troço, enquanto de um aglomerado de people se ouviria o tradicional. “Look up in the sky! It’s a bird! It´s a plane! It´s Superman!

E o casamento do Príncipe Charles com a Lady Di, hã? Aquela que depois ninguém pode salvar nem fazer a Terra girar ao contrário. Pra mim tinha sido em 80 o casório. Nem foi! 1981. Também foi nesse ano que atiraram no papa à queima-roupa. Minha avó tinha uma bandeja com a imagem dele. Lembrança da visita ao Brasil que costumavam dependurar de enfeite para abençoar a casa.

Eu colecionava as tampas da Delícia com figurinhas de heróis, inclusive a do Superman. Na geladeira, uma multidão de margarinas destampadas e nenhum sorriso amarelo no rostinho. Digo, assim eu lembro. Talvez fossem dois ou três potes, que o pai até queria agradar, mas não ia torrar tudo em cremes vegetais.

E o Dominguinhos, hein? Já o Lennon tenho certeza. Foi em 80, ano Domini! O pop não poupa ninguém. Onde estava o Clark nesse dia? Na redação do Planeta Diário? Lembro vagamente de ler sobre o assassinato no jornal catando pedaços de sílabas.

Olha essa, imagine! Como eu ia esquecendo? Em 1980 nascia minha irmã também. Um bebê real de verdade. Verônica, o nome dela. Igual à graça da santa que enxugou o rosto de Cristo e ficou com a caretinha dele gravada no pano.

Naquele ano as coisas mudavam para mim. Eu deixava de ser o sumo herói da casa. Só sei que depois, talvez antes, comemos muita margarina no pão que a vó trazia na bandejinha do papa.

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