20 de jun de 2013

O antes e o depois


A viagem no tempo é possível. Estamos todos nesse trem. Segundo após segundo, minuto a minuto, horas, dias, meses, anos, nossos corpos atravessam o que aceitamos como sendo normal, natural. Alguns dessem na estação errada. Ok. Ou fazem jornadas mais curtas. Mas nós, os demais. Os que continuam em rodopios em torno do sol, fazemos senão viagens para o futuro. Será?  
Como percebemos a passagem do tempo? Não tem cheiro, nem sabor, cor, som, ou fofice. Mesmo no silêncio mais compacto do escuro mais profundo, enclausurado no vácuo, acreditamos poder sentir o tempo fluindo. Não será isso uma ilusão em defesa da ordem universal? Fôssemos desprovidos de todos os referenciais perderíamos a noção do tempo, ainda que em nossos relógios internos permanecesse aquele tique-taque que nos carrega no eterno agora que depois de agora segue sendo agora.  
O grande erro de nossas vidas é essa mania de pensar o tempo em mão única e linha reta. Insistimos em aceitar a voz imperativa dos tempos verbais. Alguns apenas olham pela janela, passa poste, passa carro, passa casa, lavoura de arroz, lavoura de arroz, lavoura de arroz, passa boi, passa boiada, bicho morto na estrada. O pensamento muitas vezes ficou no embarque, na mala, no que teria esquecido, no adeus que deixou de dar. Outros só pensam pra frente. Saberá onde descer? Haverá alguém esperando? Achará o endereço? Será que vai chover? Nossas dúvidas pretéritas são afirmativas. A exclamação é dedo na cara das possibilidades. As incertezas do futuro são mais questionadoras. Inseguras. Coçam a cabeça no pontinho da interrogação.  
É interessante observar a construção da percepção temporal nas crianças. Minha filha está agora com cinco anos, mas já faz uma data que tento explicar pra ela a diferença entre o antes e o depois. Confunde tanto os institutos que por vezes acho que é de brincadeira só pra ouvir novamente minha palestra de física around the clock. Emprega, porém, com tanta propriedade os termos que já me põe em dúvida. Não erra usando “antes”, ao contrário, usa o “depois” pra trás. Tipo a música aquela do Vitor Ramil. Exemplo. Pai, eu já escovei os dentes depois. Quê? Já fui depois no banheiro e escovei. Talvez os pequenos entendam mais do tempo do que nós que os ensinamos a obedecer ponteiros e folhinhas. 
Outro dia assistia a um documentário que falava do tempo como uma decorrência do espaço, sendo possível fatiar o universo em três dimensões, como um pão de sanduíche. Então algo que ocorre neste lugarejo da galáxia poderia estar alinhado com outro evento que rola a anos-luz daqui. Como o tempo é relativo e sujeito à velocidade, massa e gravidade, eventos muito distantes não poderiam estar completamente alinhados sucessivamente em todos os respectivos pontos. Isso é muito complicado, nem sei se entendi direito o tal programa. Pra encurtar, dizem que o universo é todo torto e o tempo não seria, portanto, uma verdade absoluta e constante em todo local. Assim, passado, presente e futuro podem coexistir, dependendo do ponto de referência do observador. Águas passadas moveriam moinhos, inclusive ainda lá atrás.
Queria encerrar agora com moral de história edificante ou ideal, que permitisse aceitar o passado e entender o presente, só acho que já fiz isso... depois.

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