30 de abr de 2013

Memórias londrinas


Publicado no Diário Popular, dia 19/04, agora colo aqui a primeira de uma série de três crônicas sobre minhas impressões de UK, que na correria de viajante não consegui postar antes. Enjoy!
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Ao visitar outro país carregamos na bagagem todo o referencial cultural de nossa terrinha. 
É difícil abandonar os comparativos. No Brasil é diferente, não é assim ou assado etc. Mas prometo não comparar. As impressões que registro a seguir são nuanças de um quadro visto rapidamente ao rés do chão. Sirva ou não para pensarmos nossa realidade, não vai aqui qualquer moral.

Pois bem, Londres é fantástica! Faz uma semana que I'm wandering round and round e não posso esquecer as cores de London, London, música que Caetano compôs quando esteve exilado na Inglaterra. A grama é verde, os olhos são azuis e o céu é cinza. Há um silêncio dolorosamente feliz numa esquina qualquer. E o pessoal preza a tranquilidade. Num prédio vi uma advertência. Close the gate quietly (feche o portão quietamente). A classe média vive muito bem, pelo menos nas áreas mais centrais da cidade. Turistas do mundo inteiro andam com suas enormes máquinas fotográficas a tiracolo sem medo. A única correria que vi foi de uma atendente de Café atrás de um cliente que esqueceu o troco. 
Em sua lógica contramão, a cidade é de uma organização ímpar. Os grandes museus são gratuitos. Há livrarias de vários andares e um sebo a céu aberto, digo coberto por uma ponte no Tâmisa. As ruas são limpas. O metrô é rápido. Os ônibus de dois andares são transporte eficiente em dobro. Muitos ciclistas. Os famosos cabs são caros, mas honestos. 

Têm taxímetro e o motora não oferece precinho sem ligar o aparelho, como acontece em algumas capitais brasileiras. Ops, sorry. Falei que não iria comparar. Aproveitando a escusa, percebi também que pedem perdão pra tudo. É meio no automático, mas chama a atenção a educação do nativo inglês. As pessoas não passam na frente das outras sem emitir uns quinhentos sorrys, acompanhados de outros centos tank yous. Há poucos veículos e bastante silêncio nas áreas residenciais. Os sons de sirenes são de ambulâncias e bombeiros. Alguém vai se queixar que o socorro funcione bem? Policiais andam a pé por toda a parte. 

Tem lado pra ir e lado pra voltar. Mesmo caminhando. Fica-se à direita nas escadas rolantes pra quem estiver apressado poder transitar livremente pela esquerda. E como transitam. Em uma manifestação que entrei de boa na Trafalgar Square, deu para sentir um pouco da energia democrática que flui na city. Tinha muito coletinho ostensivo verde-limão mantendo a ordem, é verdade. Logo saquei do que se tratava ao ver na camiseta de um cidadão Rejoice, rejoice. Thatcher is dead! (Alegria, alegria, Thacher está morta!). A passagem da primeira ministra, adorada por tantos, quanto odiada por muitos outros, fez pensar que a remissão de todos os pecados pós-mortem não é uma via de mão única como no Brasil. Sorry! A famosa praça foi e é palco histórico de protestos como ocorreu em 1990 contra a alta política tributária da dama de ferro, ocasião em que polícia baixou o porrete na turma, que revidou. Além das caduquices neoliberais a tia também foi responsável pela ridícula guerra das Malvinas. 

O resultado foi a queda da governanta na Inglaterra e da junta militar na Argentina. Ocorre que a velha era ruim mesmo e tem gente que não esquece. Bad lady! Na quarta-feira (17), durante o seu cortejo fúnebre, houve novas manifestações de apreço e desapreço. Em uma das faixas empunhadas, o duplo sentido velado: But we loved her. Reclamam muito que o funeral da defensora do liberalismo britânico tenha sido estatal e custado mais de dez milhões de libras ao contribuinte. Enquanto isso, no Brasil... 

3 comentários:

Ainda em Tróia... disse...

Adorei! Verdadeiramente me senti caminhando por Londres!

Manoel Soares Magalhães disse...

Maravilha, amigo. Me senti em Londres, tonto de sabores e cores!!! Abraços

Maurício Pons disse...

Não conheço Londres. Ou melhor, agora conheço um pouquinho. Valeu pelo passeio.