30 de mar de 2013

Paixão animal


Sexta-feira Santa sempre cai numa sexta. Tri massa a lógica disso, seja lá qual for. Enfim, foi convencionada como sendo a data da Paixão de Cristo. Paixão unilateral pela humanidade, que pagou o amor com uma tunda de laço no cabeludo e com seu abate humanitário. Seguir o mestre nunca foi nossa brincadeira preferida de infância. Fazemos quase tudo por imitação sem saber direito o porquê. Qual é a do lance de não comer bovinos na efeméride? Ninguém sabe dizer. Quem mandou seguir isso? Os silêncios de nossa cultura ecoam assustadoramente. Rezamos a cartilha do repetente. Desde que nos livre do mal, amém, seguimos comendo mosca.
Minha avó não deixava a gente papar carne vermelha na sexta sagrada. Como contestá-la? Era uma santa, a velha. Já não vive pra ouvir minhas blasfêmias e desaforismos. A avó dela também não rangueava boi na quaresma. Talvez passassem a semana toda na secura de sangue. E depois não mudava muito a situação. Seguiam com a barriga na miséria. Os jejuns emagreceram desde os 40 dias em que Jesus roncou as tripas no deserto. Chegou a ver o demônio em sua agonia e não amarelou. Já o reencarnado Inri Cristo foi às raias da hipoglicemia quando deu com as guampas dessensibilizadas no chão, recebendo o chamado do Pai. Ninguém leva isso a sério, né? Perdoem o meu ceticismo e sinceramente espero não haver qualquer inriquete lendo, pois não é meu propósito melindrar a piração alheia. Loucura por loucura também tenho as minhas, que vos digo de boa, cultivo com fé e perseverança quase monásticas. Parece mentira que faz dois anos que parei de comer carne. Não só a bovina, mas toda e qualquer forma de vida senciente ou que lute pela sobrevivência. E tenho me alimentado muito bem, obrigado. Coisa de burguês, vão dizer. Que pobre não pode se dar ao luxo de refutar alimento. Desde que possa assar uma graxa e derrubar um engradado de cerveja no finde. Tá bom! Diz que a Igreja Católica atualmente exorta aos vegetarianos que se abstenham de algum outro alimento na sexta apaixonada como forma de penitência. Essa eu passo. Meu agnosticismo não me deixa cair mais em tentação. O diabo não acha mais graça em mim. Não sei brincar. 

Na quinta-feira peguei uma porrada de exames que fiz com acompanhamento nutricionista. Já era hora de fazer uma checagem pra ver o impacto da abstinência animal. Colesterol baixo, ferritina normal e B12 pra dar e vender. Glicose, sódio e cálcio religiosamente regulados. Pra comemorar dou mais um passo na evolução da espécie, adotando a dieta vegana. Corto então os demais alimentos de origem animal. Ovos, leite e mel. Motivos não faltam. O ser humano é o único mamífero adulto que suga o leite de outro animal porque sua avó também fazia isso. Nem temos enzimas para digerir direito. Somos a maria-vai-com-as-outras da natureza. Mel é vômito de abelha. E o ovo? Bom aí basta pensar na definição da coisa pra captar o absurdo. É literalmente um aborto culinário. Pirei total. Trata-se de decisão pessoal e não estou aqui para pregar o ismo da opção. Cada um com suas paixões. Claro que se o leitor meditar no assunto não será pecado. Ano passado evoquei aqui alguns ídolos do vegetarianismo como Da Vinci, Newton e Einstein. Há poucos mestres, porém, pra vender o não-peixe vegano como a Natalie Portman e o Tobey Maguire, por exemplo. Melhor assim. Sem líderes. Contudo, foi legal saber que o Homem-Aranha não come mosca.

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