16 de mar de 2013

Galinhagem




Não é o que você está pensando. Não vou falar de putaria. Ou sim. O vencedor de melhor curta-metragem ibero-americano no Festival de Guadalajara ocorrido na última semana foi o brasileiro A galinha que burlou o sistema, de Quico Meirelles. O filme é de 2011 ou 12 e tem recebido muitos, muitos prêmios desde então. O diretor, como o nomezinho indica, é filho de Fernando Meirelles, cineasta ovacionado por Cidade de Deus e Ensaio sobre a cegueira. A protagonista do curta tem uma epifania, uma iluminação que lhe permite compreender a totalidade do sistema no qual está inserida e sua sina nada promissora. E como não se morre de véspera, não contarei o final, somente a principal indagação da galinácea: “Será que eu ainda posso mudar o meu destino?” O curta é uma grande metáfora para os dilemas da humanidade, as situações e agruras por que passam aqueles que sonham em alterar o estado atual das coisas.

Mas como já disse, não é o que você está pensando. Não vim falar em metáforas, pois a realidade e a crueza da vida da galinha na granja se bastariam como elemento de reflexão. Algumas cenas do filme só encontram similar em documentários como a Carne é fraca. Dizem que o jovem diretor se tornou vegetariano depois das filmagens. Não é panfletário, antes anedótico. É tipo o Fuga das galinhas, animação de 2000, só que não.

Lembrei também de dois exemplos literários, sem a sacanagem metafórica. Ou sim. Até porque hoje em dia todo mundo adora citar Clarice Lispector tirando lições edificantes. É dela o famoso conto Uma galinha, que aumenta um ponto contando da saga de uma franguinha fujona. Embora tola e menos esclarecida que as anteriormente citadas, esta escapa no dia em que ia pra panela. Recapturada em meio a sua patetice penosa ainda põe um ovo. A família se comove com a dádiva, poupando-a do sacrifício. A autora indaga “o que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser?” Depois afirmando, não sem um certo tom de dúvida. “A galinha é um ser.” E termina assim (atenção, spoiler a seguir), “Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos”.

O outro escrito que referi é uma crônica do Ferreira Gullar. Aliás, ele conta em outro texto, O galo, que o apelidaram de poeta de galinheiro. Mas voltando ao que referi primeiro, chama-se Frango Tite. A crônica é quase um conto. Ou não. Resgata o caso de um frango baratíssimo que se comia na Lapa, próximo aos arcos, no Rio de outrora. E era servido perto das 7 da noite. “Vai sair o Tite” e era uma correria só. Depois de muita janta socialista de galinha ao molho pardo, o poeta deu vazão a sua curiosidade pequeno-burguesa, indo atrás da origem da alcunha do prato. E a explicação o deixou boquiaberto. Todo domingo o dono do restaurante ia comprar os frangos na feira. Como os animais eram carregados em engradados e machucavam-se bastante, alguns eram arrematados pelo comprador em situação de morre-não-morre. Ele vendo as aves na infeliz situação, assim as buscava entre os feirantes, conseguindo grandes descontos: “Tem galinha tite? Tem galinha tite?”. Queria dizer triste, mas de seu sotaque chinês saía apenas tite. “Vai moler mesmo!” E ria. Isso sim é putaria! Ou no mínimo galinhagem das brabas!

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