2 de mar de 2013

Del

Meu note tá com a tecla del pifada. Note é como se chama notebook, que é um computador maior que um tablete e menor que um PC. Pifado significa que tá estragado. E se estragou... deu! Putz, me estraguei aqui teclando essa infâmia e nem posso deletá-la. Poderia usar o backspace, mas não quero. Pra frente é que se tecla. Quando era piá, notebook era só um caderno de notas na aulinha de inglês. Nunca tive, contudo, a tal lição de que o livro estava sobre a mesa.

E se for vírus? E se der pau? Tela azul ainda existe? Como vou dar control, alt, del? Deletar não é neologismo da era digital coisíssima alguma! Aliás, o único neologismo até hoje foi neologismo. Antes dele todas as palavras tinham preexistência garantida. Delete vem do latim delere, que também gerou indelével, que gerou Caim que deletou Abel. Mas essa semana não vou tocar em religião, assunto que exigiria muita revisão. Fui pro Google e descobri que control, shift, esc também aciona o controle de tarefas, digo, o gerenciador de tarefas. Acho que o problema é hardware mesmo. É o teclado. O botão do mais também não responde. Já tentei arrumar, mas não teve jeito. Baixei ferramenta, passei antivírus e nada. 

 Que falta tá me fazendo o tal do del. É o para-te-quieto do qwerty desbocado. Seu uso, porém, exige mais responsa que o backspace. Ao passo que este filtra e corrige tudo ainda enquanto digitamos, aquele só é acionado após a releitura e a tomada de uma decisão, por vezes dolorosa, de suprimir algo. O backspace é impulsivo. O delete faz terapia. O backspace é bibolar, diz na cara e desdiz pelas costas. O del é pra sempre. 

Quando comecei a graduação nos anos 90, cheguei a usar a máquina de escrever. Não havia tecla de deletar, nem a de voltar espaços. Escreveu errado, tirava o papel, rasgava e digitava, ou melhor, datilografava tudo outra vez. Quem usou deve estar voltando no tempo e escutando o som dos garfos batendo na folha. A gurizada acha graça. É papo de velho. Depois, no estágio, eu ainda não tinha computador e carregava um programa editor de texto, mais os seus arquivos, em um disquete de um mega e meio. Ali começou para mim o império do escrever pra frente e pra trás. Porque quando a gente redige apagando, escreve-se para os dois lados. Em 94 comprei o 386. Os primeiros computadores traziam opção do som digitalizado das velhas teclas de martelar palavras. 

Outro dia vi na internet uma máquina de escrever acoplada em um tablete substituindo o teclado na digitação. Fala em saudosismo! Agora passamos os dedos em teclados de vidro. Ditamos nossos torpedos no ouvido do celular. E cá com meus botões de toque e ouço, fico pensando que na real o instrumento usado influencia no nosso modo de pensar. 

No tempo das Olivettis e Remingtons, escritores revisavam seus trabalhos no todo e não fragmentariamente como fazemos hoje. O fato é que escrevemos muito mais nesse cabo de guerra de deletes e backspaces e o resulto nem sempre é mais no menos. Ideias são mais deletadas do que nunca. 

Digitar errado é humano, apagar mais do que se redige é burrice.

2 comentários:

Sebastião Relson (@relson) disse...

Viajou bonito.

A mensagem é mais importante que o meio de transmissão ou a forma de criação?

Márcio Ezequiel disse...

Não entendi a pergunta. Digo, não entendi o que tem a ver com o texto, mas respondendo, sim, a mensagem é mais importante que forma de criação. A tese da crônica é: a forma de produção influencia no conteúdo. Betânia é linda. Ou não.