9 de fev de 2013

Panis et circenses


Carnaval romano pintado por Johannes Lingelbach
Pão e circo. Faz uma cara, desde quando não vendíamos nossas ideias pra ninguém. A galera largou de mão suas obrigações, o povo das antigas que militava, que tinha altos trampos, legiões e tudo mais. Agora a turma se encolhe e só pira com duas paradas: rango e festa. Era mais ou menos isso o que dizia o gaiato romano Juvenal, em sua sátira, Livro X, no século I depois do Cristo. O Carnaval é o nosso gran circo. Alegoria de si mesmo. Pão dormido na quarta de cinzas. O.k., nem tanto ao céu... Mas se recuarmos quatro ou cinco mil anos, lá na antiguidade, já festejavam agradecendo aos deuses a produtividade do solo que fornecia o cacetinho deles de cada dia. Em 500 a.C., com a ala dos gregos o enredo é o mesmo. Mil anos depois, apesar da perseguição aos cultos pagãos, na Roma cristã, havia ainda uma celebração anual para Ísis, deusa egípcia da fertilidade. Era chamada de Navigium Isidis (carrus navalis, carro naval de Ísis), sugerindo uma das etimologias para Carnaval. 
 O antropólogo Roberto da Matta notabilizou-se nos anos 80 com uma tese sobre o Carnaval no Brasil. Traçou um paralelo entre a festa popular e os desfiles da pátria. A proposta andava pari passu com o fim da ditadura e o início da abertura política. Talvez devêssemos retomar um estudo comparativo, porém, entre o religioso e o profano da folia. 
A Festa de Nossa Senhora dos Navegantes - ou Iemanjá, conforme o sincretismo novo-mundista, por exemplo, em contraponto ao Carnaval. Um festejo é do dia; o outro, da noite. Caras e coroas à parte, são farinha do mesmo saco no barco da história. 
Isis romanizada, séc. II
Na festa de Ísis, havia uma procissão em que a estátua da divindade deixava o templo, e era transportada por sacerdotes em cortejo até a costa, onde era embarcada em um navio de madeira decorado com flores e oferendas, dando o início à temporada de navegação. O bloco era marcado por música e dança com personagens mascarados. Hein? A apropriação católica é óbvia. E a mundana, idem. Navegantes ocorre em fevereiro. O Carnaval, geralmente também, pois é calculado visando a Páscoa, que por sua vez tem origens judaico pagãs. [Cabe aqui um easter egg - Ishtar era a deusa suméria da fertilidade, correlata de Ísis, assim como seria Easter, entre os nórdicos]. O próprio Cristo teria sido crucificado na correria para não atrapalhar as comemorações da Pesah, pascoinha judaica daquele ano. Prega-se outra explicação etimológica para carnaval, derivando de carne vale, que significaria um adeus à carne. Um vale folião que antecede a quaresma, período esse de privação dos prazeres. 
 A sátira de Juvenal ainda dá samba em nossos dias. Chico Buarque também nos cantou dos ancestrais, a página desbotada da memória das novas gerações. De um tempo em que erravam cegos pelos continentes erguendo estranhas catedrais. Ai, que vida boa! Panis et circenses. Nada que já não era antes e ainda somos mutantes. Bate macumba, Batman! Solte os panos sobre os mastros no ar e solte os tigres e os leões nos quintais. Enfim, como dizia o cara aquele da antiga legião, “vamos comemorar como idiotas, a cada fevereiro o feriado.”

Um comentário:

Manoel Magalhães disse...

Amigo, uma maravilha. Superação total!