15 de fev de 2013

Benefício da dúvida

Agora querem o 12 de fevereiro pra Dia do Orgulho Ateu. A data de nascimento de Darwin foi escolhida pela Atea - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, homenageando aquele cientista por ter enfrentado, com seus estudos sobre as origens das espécies, o imaginário dominante de sua época. Criada em 2008, a citada associação orgulha-se de contabilizar seus associados. Mais de sete mil. Respeito, principalmente por fazerem o contraditório a toda forma de intransigência que há no fundamentalismo religioso. De saída, marcam ponto contra os crentes, justamente por discutir racionalmente o que não pode ser tratado da mesma forma no campo dogmático. Charles Darwin era agnóstico. A ele, o benefício da dúvida.
Os ateus acertam muito na desvinculação dos atos hediondos das pessoas que não acreditam em um Todo Poderoso. De fato, não há lógica alguma em repetir as premissas do filósofo Datena, de que um assassino ou maníaco só poderia ser alguém sem Deus no coração. Aliás, a história e, mesmo o presente, trazem de maneira muito mais crível vários exemplos de barbaridades cometidas em nome da fé. Na ausência de um deus que castiga é que podemos reavaliar nossos princípios com base na ética, no bem comum e não por receio da punição apocalíptica. Quem sabe?
Alguns adeptos do ateísmo, entretanto, a fim de pregar suas convicções, aproveitam a onda do politicamente correto, colocando-se como a última das minorias. A partir daí, parecem cometer alguns equívocos. Primeiro por assumir o papel da vítima, o que dificilmente leva à maturidade de pensamento. O sentimento de perseguição pode, ao contrário, descambar ao ódio ou à intolerância ante qualquer discordância. Ao colocar-se como a minoria derradeira, não somente ignora-se o quanto há por avançar nas demais causas, como as raciais e de gênero, como se subestima as novas bandeiras, como a defesa dos animais, o veganismo, a liberação da maconha, etc., tão legítimas aos seus proponentes quanto a descrença do ateu. Acredita?
Confesso que meu agnosticismo não é dos mais convictos. Tampouco confortável como se pensa. Mais fácil seria lançar-me ao extremismo ateu. Ainda não consegui. A resposta que a ciência oferece sempre foi e será provisória. Portanto, não podemos saber sobre o que transcende à matéria. Não sabemos o que havia antes dos 14 bilhões de anos que deu início ao universo. Dizer-se ateu não poderia ser algo como professar não haver uma cama no centro de um quarto escuro sem nunca ter aberto a porta? Não sei.
Talvez os ateus de carteirinha pequem na origem. Só o fato de associarem-se demonstra herança do mesmo impulso tribal de sobrevivência que tornou possível a religião. A necessidade de pregar suas convicções mesmo a quem não quer ouvir é muito parecida com a dos caras da plaquinha no peito que batem palma em frente de casa. Vai saber!
É pelo discurso inflamado que os ateus padecem fora do Paraíso. Toda consciência tem um tempo certo debaixo do sol. O que deveríamos defender é o “faça o que você quiser”, desde que não machuque ninguém.
O resto é inconveniência, intolerância ou sabe-se lá o quê.
Um dia saberemos.

 
 

Um comentário:

Anônimo disse...

Há tempos não lia algo tão coerente na internet que não fosse copiado de algum autor famoso. Meus parabéns, continue assim!