25 de jan de 2013

A janela

Tinha uma piada que ouvi quando guri e volta e meia recordo. Era assim: sabe qual o cúmulo do nada a ver? O filho diz, pai, me dá uma bicicleta? Não, você já tem uma janela. Moral da história: tua mãe não fuma. Eu achava uma graça daquilo. Por que raios a janela invalidava o regalo? E ainda acabava com a mãe (do ouvinte) como não fumante. Perfeitamente coisíssima nenhuma a ver. Total surreal!
Lá em casa tem uma janela na parede da sala. Deixa eu explicar diferente pra clarear. Tem uma janela na parede da sala que não é a parede que tem a janela da sala. Entendeu? Não dá pra rua. Aliás, abro um parêntese aqui. O número de paredes que têm janelas pra rua é quase um indicativo social. As classes altas e baixas sempre têm muitas janelas. Mas a classe média tem apenas uma janela por peça. Enfim, fechar comentário. A janela a que me referia, a lá de casa, está numa parede que divide a sala com o apartamento ao lado. É na realidade somente uma moldura de janela sem vidros. Comprei-a num antiquário e dependurei na parede. Pra enfeite. É janela pra nenhum lugar. Pós-modernidade emoldurada. A ideia inicial era colocar nela uma fotografia ampliada da rua. Como se enxergássemos, através da parede e através do apartamento do vizinho, a verdade lá fora. Contudo, julgando autêntico retrato do isolacionismo atual, desisti.
Agora todo mundo que vai lá em casa olha a moldura vazia e tem o mesmo insight. Por que vocês não põem fotos aqui? Várias imagens. Da família. Filmes. Beatles. Até uma tela de LED por detrás foi sugerida, lembrando uma cena do Vingador do futuro. Confesso que me divirto. É um simples quadrado com outros quadrados menores dentro. Minha filha, com cinco anos, também passou pelo processo de estranhamento, convidando-me para o jogo da velha nos vãos da janela. Fizemos com o dedo no ar e tinta invisível. Mas há somente seis espaços vazios e não deu certo o joguinho. E é nesses perturbadores escaninhos cor de parede que as pessoas se projetam. Querem ver seus sonhos ali, quadro a quadro. Como se a janela que não pode mais ser janela só ganhasse sentido se fosse outra coisa.
Prefiro pensá-la como um reflexo do que foi. De onde era? Apartamento ou casa? Não parece tão antiga, tampouco recente. Através dela via-se uma rua ou os fundos de um pátio? Outra residência ou terreno baldio? Uma escola, um hospital?
O certo é que por ela outros viram escorrendo a chuva ou um céu estrelado. Quem sabe emoldurou uma conversa ou uma saudade? Por ela entrou o sol num dia de inverno ou saiu um menino para andar de bicicleta no verão.
Se também nos espia, a janela é discreta. É óculos da alma. Livre de cortinas, venezianas ou gatos dormindo. Por ela não se acena, nem se pula. A janela na parede sem janelas ainda é janela. Aquele que para diante dela é para si que olha. Agora compreendo melhor a graça daquela piada. Talvez mexesse no inconsciente. A coisa da família fracionada, com diálogos incoerentes. O pai explicando o ópio da mãe e a castração do menino. Nada a ver.            

3 comentários:

Francisco Antônio Vidal disse...

Toda janela é indiscreta, como sugeriu Hitchcock, pois permite ver. O problema é a obsessão por ver coisas alheias, ou aquela outra complicação de ter que se fazer de cego para coisas que não deveriam ser vistas mas estão à nossa frente.

A falsa janela na parede é um truque psicológico para projetarmos nossas lembranças e vivências inconclusas, que são as que vêm à mente quando olhamos uma folha em branco.

Janela e Janeiro têm em comum que são aberturas (do latim janua).

Já a piada do "nada a ver" só funciona se não mexer com teu inconsciente. Se mexeu e te fez rir, então temos que interpretar, mas aí entra a relação com tua família e não a lógica do conto. Psicanálise é assim.

aquele do blog disse...

Janelas são seres que, se falassem, não haveria espaço para ninguém contar histórias. Só dariam elas.
rs Nada a ver! rs
;)

www.atormentossingulares.com

Eduardo disse...

Achei afudê

http://todocontocontatudo.blogspot.com