13 de jan de 2013

Memento

Tava ingerindo brilho pela manhã e pensando sobre o que escrever. Foi justo quando me lembrei de uma entrevista que vi com Nicolas Behr. Poeta da geração mimeógrafo. A técnica de reprodução em papel carbono era usada para espalhar a poesia marginal nos anos 70. Brilho é o nome que dei a uma combinação de farelos nutritivos misturados num vidro. Tem sido meu alimento matinal. Gérmen de trigo, levedo de cerveja, guaraná em pó (minha mãe até agora chama de guaraná cerebral), ginkgo biloba e ilex, peneirada da erva-mate. A receita não é fortuita. Nem ilícita. Estimulantes da memória e do raciocínio. O modo de servir é simples. Só tacar a farinha no iogurte e pronto. É café com porrada!
Tenho memória fraca. Talvez escreva histórias pelo receio de esquecê-las. A humanidade está perdendo de fato a memória. A noção temporal foi pro espaço faz tempo. O senso incomum é de uma passeidade líquida escorrendo por entre teclas virtuais. Desde nossos cabeludos antepassados, o conhecimento originalmente armazenado está deixando nosso hardware orgânico para residir nos periféricos de plástico. Os animais são diferentes. Já nascem sabendo. Têm em mente tudo o que precisam para sobreviver sem consultar qualquer cola externa. Os cães enterram sua sujeira sem campanha de separação de resíduos. Os gatos se lavam. Os peixes nadam contra a corrente em busca do futuro da espécie. Os pássaros cantam. Faça chuva ou faça sol. Tais heranças múltiplas foram encapsuladas em seu instinto. O homem foi quem inventou essa de tudo registrar. Cagando e anotando. Apartamos o pensamento do cérebro. Existiremos até quando?
Da tradição oral ao telemarketing, a mensagem é a mesma. “Não esqueça minha Caloi.” Foi assim que nos tornamos desmemoriados de nascimento. E precisamos aprender tudo de novo a cada geração. Inclusive a andar de bicicleta. “A escrita nasceu da necessidade de não esquecer”, escreveu o Veríssimo certa vez pra não perder uma ideia fugidia.
No filme Memento (Amnésia), o protagonista escreve no próprio corpo, tatuando mensagens vitais que não poderia olvidar mas que logo se apagavam de suas lembranças. Na sua fala, Behr lembrou que há cinco mil anos começamos a escrever. Há 500 anos passamos a imprimir e há 50, a digitalizar. Entre uma e outra colherada do brilho, pensei que a memória está definitivamente deixando nossas cucas. Cada vez mais depositamos conhecimento em cache. Servimos a servidores externos. Investimos em bancos de memória. Confessamos o que sabemos, gostamos, comemos e fazemos.
Futuramente perderemos o tino. A noção de qualquer coisa sumirá por completo. Quando digitalizarmos totalmente a consciência, ao mesmo tempo em que daremos o primeiro passo à eternidade, surgirá uma geração de desmiolados, mimeografados digitalmente e aí... perdi o fio da meada.
Enfim, descartaremos o orgânico e esvaziados, seremos esquecidos por nós mesmos. Até lá teremos ainda algumas coisas pra contar, assim como registro agora algo sobre essa entrevista do poeta Behr a que assisti dia desses e da qual já ia me esquecendo.

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