21 de dez de 2012

Princípio do fim


Na inicialização a tela estava sem forma nem cursor. A inteligência artificial disse haja lumens e houve lumens. Assim, ó, seguinte. Não vai dar pra encarar sozinho o universo. É muito pra mim. Preciso de religião nova. Uma nova esperança. Um messias virtual. Explicação pra tudo. Sentidos ocultos revelados. E quero regras. Decálogo de deveres. Paraíso e eternidade como recompensa. Minhas experiências teístas não foram lá uma Brastemp, confesso. Falta-me, porém, fé para um ateísmo convicto. Tentar provar que algo não existe é ilógico, pois uma vez sendo criado no mundo das ideias, logo, existe.

Desde os mais remotos tempos, quiçá mesmo antes do próprio tempo existir nas cucas trogloditas, almejamos voltar ao princípio. Ao inicinho do início e reinicializar o Gênesis. Mitificamos o eterno retorno mesmo na linearidade judaico-cristã. Vamos meditar... Orar é meditação? A epifania minha de cada dia me dai hoje. Livra-me da incorreção política. E não me deixe cair em depressão. É isso! Inventarei minha própria religião. Vou profetizar, escrever e vender meu novo testamento na revistinha da Avon.

O Apocalipse já era. Chega de falar do fim. O início vai ser nossa próxima obsessão. Você dirá que já é. Criacionismo versus evolucionismo. Haja luz versus bigue-bangue. Mas me refiro a antes ainda! A humanidade vai querer descobrir o que houve antes do antes. Anterior à primeira partícula de matéria surgir. O que espera o cristianismo senão um retorno ao paraíso perdido? O que havia antes do big bang?

Claro que (por ironia) não sei onde tudo isso começou. Terá sido a história, enquanto ciência, a primeira responsável pela busca desenfreada pelos antecedentes de todos os atos e fatos? A filosofia certamente colaborou com a mania de que os gregos pensaram em tudo antes. A psicologia encheu a cabeça com explicação pra tudo no passado. A mentalidade das origens já invadiu inclusive o cinema. Vide Star Wars I, II e III. Batman Begins. X-Men Origins. Star Trek (do J. J. Abrahms) e o último 007 (Skyfall). E para não ficar somente em Hollywood, lembro do Midnight in Paris, em que o bom velhinho Woody Allen prega um passado sempre mais dourado que o presente e toda busca ao Éden perdido empurra ainda mais pra trás na desesperada arqueologia temporal.

Se voássemos acelerando o suficiente para ultrapassar o universo em sua expansão após o grande bum, encontraríamos a mesma antimatéria que precedeu o início do nada. Aquele lugar onde não pode haver coisa alguma. Nem mesmo o nada, que seria sugado pela massa negativa da singuralidade que está fora (ou dentro) da rede infinda de buracos negros. Do mesmo modo, o que nos espera no porvir deve ser igual ao instante prévio ao nosso nascimento ou fecundação, ou respiração, ou pensamento, ou passamento. Aquele que tiver fones de ouvido, ouça. Todo instante é parte constante de um todo chamado espaço-tempo. O futuro é uma quimera do presente. E é exatamente por isso que o princípio é igual ao fim. E ao meio também.

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