30 de dez de 2012

Discutindo a redação

Fim de ano tá chegando. Mundo abobado contando giros. Até aí tudo bem. Tento não dar bola. Faço que não é comigo. Ah, pode parar. Sempre o mesmo papinho nessa época. Não quero falar de ano-novo de novo. Coisa mais brega. Me escondo atrás de uma próclise errada se for preciso. (Disfarço entre parênteses). Fico quieto no meu qwerty. Alinho à esquerda, à direita, centralizo, justifico. Nada adianta. Que faço? Preciso ser mais proativo? Esnobo a efeméride então.
- Qualé? Seguinte, ó. Nem te ligo. Quê? Vai encarar?
Xingo, baixo o nível, ameaço com processo. Ela recua. Mostra-se chocada. Magoada. Não vou cair nessa. Alguém aí acredita que ela desistiu? Que a datinha me esqueceu? Seria muito bom. Escrever sobre o que quiser. Senhor do meu domínio. Mas não vai ser assim tão fácil. Cheia de esperança, ela espreita da página em branco. Fazida que só ela. Pesadelo total!
É uma cretina, gente. Provocadora barata. Esta data não tem limites. Manda recado. Lembrança. Envia abraço por conhecidos e até por estranhos. Recebo torpedos, spam. Pode? Outro dia quase falei pro vizinho ir pro inferno. Coitado, não tem culpa. Nem sabe dessa minha desavença com a louca da pá virada.
Tô ligado, ela não vai parar. Atira pensamentos categóricos em bolinhas de papel amassado. Sopra frases de efeito e trocadilhos rasteiros. Faz joguinhos.
- Sai de mim, coisa ruim. Não vou ceder. Para de me perseguir! Vou mudar de parágrafo, se vier atrás vou denunciar.
- Ah, não! Vou chamar o Tim Maia! Não tá vendo que papelão isso. Tá me envergonhando... Olha aí o pessoal lendo isso. Vão comentar nas redes sociais. PQP!
- Nada a declarar. Nada a declarar, por favor. Não insista. Invoco o direito de permanecer calado. A 5ª emenda, o artigo 5º, a Declaração Universal do Direitos Humanos. O escambau a quatro!
- Que nossa música? Da Simone? Endoidou! Vou deletar, tudo. Quer ver? Não estou blefando, sou capaz de uma loucura. Pra trás, que teclo backspace à queima roupa! Ligo caps lock! SE É PRA DAR VEXAME VAI SER EM CAIXA ALTA PRA TODO MUNDO VER.
- Metalinguagem o caralho!
Eu sei. Eu sei, preciso me convencer primeiro. Dia desses aceito. É só um rito de passagem igual a todos os demais. Não significa mais que uma convenção, aliás sequer ocorre na mesma data em todo o mundo. Pra muçulmanos começa dia xis, pra judeus em ípsilon e por aí vai, o que não vem ao caso, nem quero saber. Como se já não bastasse uma data só de final de ano. Para nós, que somos regulados pela folhinha cristã, ainda há o fracionamento dos fusos. Assim podemos assistir pela TV ao ano-novo em Sidney, Moscou, Berlim, Cairo, Paris, NY.
- Por que começa primeiro do lado de lá? Vai ver por ter sido o nosso calendário criado no velho mundo, rá-rá. Pois é... Bacana os fogos, né?
- O Réveillon do Rio é o mais bonito com certeza! Tá bom, admito. A data é boa pra refletirmos sobre o que rolou. A tal e coisa. Que tudo se realize no ano que vai nascer. Saúde pra dar e vender e dinheiro no bolso.
- Sabe o que é? Eu ia fazer surpresa... Joguei na mega da virada!




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