23 de nov de 2012

Diário de bordo




Geralmente começa assim. Senhores passageiros, sejam bem-vindos a bordo. Aqui é o comandante fulano de tal. O impressionante é como persiste uma aura em viajar de avião. É o transporte mais nariz empinado que conheço. O.k., num país com pobreza de dimensões continentais, a maioria jamais tirou os pés do chão senão pra subir no pinga-pinga. Mas a turma tá voando mais. De fato a passagem aérea ficou mais acessível. E a nova classe média emergente adora uma viagenzinha promocional. Cuida sites das companhias aéreas. Junta milhas. Até aí tudo bem. Me incluam nessa. O que chama atenção é o capital simbólico remanescente da coisa toda. Começa, aliás, no aeroporto. A solenidade com que carregam as elegantes malinhas de hipermercado. Todo mundo serinho. Na sua. Claro que quaisquer dez minutinhos no check-in acabam com todo charme levando o viajante a proferir palavras de desordem e blasfêmias. Impropérios propriamente ditos.

Uma vez embarcado, aí vem a tal dita chorumela que antecede todos os voos. Ladies and gentlemen... Será que os gringos realmente entendem aquela saudação macarrônica? Algumas empresas têm videozinhos explicativos, porém a maioria ainda põe a mocinha na frente fazendo micagens pra indicar banheiros e outras saídas de emergência com a voz anasalada de fundo.

Acomode suas bagagens de mão nos compartimentos acima de seus assentos e as que não couberem, coloque embaixo da poltrona a sua frente, avisam serenamente. Que saco! Nessa altura todo mundo já guardou toda a tralha. Depois se ouve a clássica: “tripulação... preparar para voo”. Como assim? Que horror! Quer dizer que não estavam preparados até então? E que diabos significa “portas em manual”? É algo tipo manivela? Por que numas vezes é “em automático” e noutras é na mão grande? Devemos nos preocupar nesse momento? Ai, ai, ai.

Informam então que por determinação sei lá de quem é proibida a utilização a bordo de qualquer aparelho eletrônico emissor de energia eletromagnética, principalmente telefones celulares que deverão permanecer desligados mesmo no modo avião. E aí realmente não entendo pra que serve o tal modo avião. Minto. Algumas companhias liberam, outras não, mas acho desaforo. E aeronave? Eles não dizem avião, dizem aeronave. Pedantismo nas alturas. Capouco vira starship. É a Enterprise? Não. É o pau de arara com asas! O espaço entre as poltronas nunca é ínfimo. Demasiadamente desumano. Muito ônibus ganha longe nesse quesito. Numa viagem internacional então vira uma cadeira de tortura a menos que você possa pagar primeira classe.

Pra não me chamarem de reclamão, gosto daquela hora que falam que máscaras cairão no caso de despressurização. Que coisa mágica! Máscaras... cairão... Pra ser sincero naquele instante, ainda que por alguns segundos, confesso, chego a desejar que caíssem as máscaras só pra dar uma oxigenada no ego da turma. Logo me arrependo do devaneio, pensando na confusão que deve rolar. Nem vou chorar os lanchinhos. Desde que parei de comer carne estou automaticamente excluído da maior parte das gororobas servidas a bordo.

Depois de subir um eito, fica liberado o uso dos aparelhos, menos, você sabe, os celulares. Até que a aeronave imbica e a voz do comandante avisa. “Tripulação preparar para pouso.” 
Ai, ai, ai... Como assim?

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