4 de out de 2012

Sonhos

As cores são construções do presente. Da luz do dia. Do mundo acordado. Dos vivos. Do hoje. O passado não tem cor. Assim como o sonho, as lembranças ficam melhores em preto e branco. Sempre ouvi dizer que sonhamos assim, em preto e branco. Mas juro que lembro de sonhos coloridos. Ao menos da presença de cores nos sonhos. Um carro vermelho, a grama verde, um céu cinza. Cinza também é cor. Mas não sei se a cor que lembro ter visto no sonho era de fato cor como a vemos aqui do lado de fora das pálpebras. Talvez sonhemos colorido de dia e sem cores de noite. É que o escuro do olho fechado na luz é diferente do escuro noturno. É cor de goiaba, de papel de açougue. De relâmpago na esquina de olho. Cor que nos tranca por dentro. Espiando na fresta com a chave na mão.
Os sonhos tangenciam a outra margem do real. Por isso que no auge de nossos pesadelos ou no esplendor do gostinho onírico, despertamos sobressaltados ou com formigar de dormência cardíaca. Os sonhos e o passado se confundem, pois não temos acesso a tudo para contar.
Lembrava algumas cenas do filme Morangos Silvestres, de Bergman, como se colorido fosse. Deparando-se com uma casa de sua infância, o velho professor Borg é transportado a suas recordações juvenis. Dava-me a nítida impressão de que o quadro era tomado de um colorido, cheio de detalhes. Revendo o filme, que é sabidamente todo em preto e branco, continuei com a sensação de haver algumas cores, muito fraquinhas, como se apenas tivessem baixado a saturação a um mínimo existencial de pequenos matizes. Memórias e sonhos são assim. Desbotados.
O sonho que o tal personagem tem em uma das primeiras cenas é perturbadoramente instigante. Aliás, gostam tanto de apontar a influência do diretor sueco na obra de Woody Allen, que lembrei de A última noite de Boris Grushenko, em que sonha com caixões dispostos na vertical em um bosque, de onde saem garçons que acabam se juntando em uma contradança de valsa. Nas duas histórias, a morte surrealista espreita os protagonistas, anunciando-se do início ao fim.
Mas voltando ao sonho de Bergman, em uma de suas caminhadas matinais o professor perde-se numa parte da cidade com ruas desertas e casas em ruínas. Andando por uma calçada, vê então um relógio sem ponteiros num prédio, com um par de olhos em óculos logo abaixo. Do casaco saca seu relógio de bolso para constatar que ali também não há marcador algum. Coloca-se à sombra do grande cebolão e limpa o suor do rosto. Batidas de coração se ouvem.
Segue caminhando e vê um homem de costas a sua frente. Mesma estatura. Estica a mão e toca em seu ombro fazendo-o virar. Ele mesmo? Não. Um rosto bizarro encara-o de olhos bem fechados antes de tombar ao chão e desfazer-se em uma poça de sangue (lá nele). Poça que lembro como se fosse vermelha. Sinos de igreja tocam. Observa a seguir uma carruagem fúnebre que chega mansamente sem cocheiro e se lança destrambelhada sobre um poste de luz, fazendo arrancar uma roda que por pouco não lhe atinge. O caixão cai. Ele se aproxima. A mão do morto está para fora do esquife. A mão agarra-o e puxa, e puxa, até que pode ver e sim, lá está ele. Era o professor no caixão.
A vida é uma contagem regressiva em um grande relógio sem ponteiros. Do fim do túnel avança sobre nós a carruagem. As lembranças guardarão ainda alguma cor.



Saiu no

Um comentário:

Anônimo disse...

Viver é uma viagem por via das dúvidas. ( frase do livro desaforismos de Georges Najjar Jr )