2 de set de 2012

O tudo desconcertante

Se o que nos rodeia, ao menos as coisas da natureza, preexistem aos conceitos atribuídos com o surgimento da linguagem, segue uma indagação incomodativa. Como foi possível alguém pensar na palavra “palavra” antes de existir qualquer outra palavra? Ou melhor, como foi possível surgir qualquer palavra antes que houvesse surgido imediatamente o conceito e significado de “palavra”. Pois ao querer dar significado a qualquer elemento existente - terra, água, fogo e ar, primeiro se fez necessário o surgimento da ideia de palavra. Mesmo que forçoso fosse prescindir de outras palavras para tanto. Para sair deste paradoxo, é preciso abandoná-lo, pois quaisquer tentativas de explicação cairiam no reducionismo causal que é o nosso maior equívoco. O de achar que tudo tem explicação pela palavra. Interessa antes repensar (ou seria melhor não pensar) a essência de um mundo antedenominado. O deus bíblico ao mandar o primeiro homem nomear os animais, afastava-o da sua divindade. A árvore do conhecimento representaria assim antes a maldição da redução do real a um signo. Aproveito apenas tal alegoria como argumento.

Em português, “palavra” deriva de parabole. É o mesmo termo na origem de parábola, que em termos literários é o gênero das histórias alegóricas. Alegorias carregam um significado oculto ou não culturalmente dado por referências diretas aos sentidos. Por isso, as parábolas de Jesus precisavam de explicação. E por isso, os carros alegóricos exigem conhecimento contextual que lhes atribua uma narrativa para o sentido que representam. Diferem, portanto, dos símbolos, que são diretos e culturalmente convencionados. A pomba branca é paz; a cruz é religião; a coruja é sabedoria. Nossa palavra é mais parabólica do que simbólica. Nasce com duplo sentido. O de coisa dita e não dita. As ditas já sabemos.

Ante a falácia do argumento construído, posto que em tantos outros idiomas não há a tal relação palavra-parábola, é preciso admitir, isto sim, o caráter enganador da palavra. Pois se há diversas línguas, a palavra “palavra” não é única, como algo universalizante. Toda palavra é uma redução do que representa. Se digo “árvore”, o leitor não vai pensar na mesma árvore que estou pensando. Imaginará uma árvore ideal, que diferirá da minha e de Platão. O galho é que árvores existiam antes da palavra “árvore” criar raiz ou descer para caminhar na savana linguística.

É muita pretensão humana reduzir o tudo ao nosso desejo de sentidos. O umbigão da racionalidade chegou ao ponto de considerar que existimos porque podemos nos pensar. Ao rotular qualquer coisa com signos fonéticos, sinais gráficos ou sentidos abstratos, desprovemos-lhe do original de sua existência universal - ilimitada pela ausência natural de conceitos. Quando damos o mesmo nome de “verde” a várias tonalidades ou sensações distintas provocadas por feixes de fótons com comprimento de onda e frequência diversos que atingem nossa retina (nossa?), estamos senão destruindo algo infinito para aceitá-lo como algo possível de entender, ver ou nominar.

Quase deduzo a existência desse algo (que provisória e erroneamente chamarei de “tudo” ao menos para terminar essa frase), que está fora do texto mental. Não concentrado em um ponto único do universo, mas em todos e nenhum. Não em um dado tempo, mas em todos. E nenhum. Fora do Aleph. E com nosso olhar sopa de letrinhas nunca poderemos o enxergar. Chame de Deus se preferir. Chame de matéria. De real. Desconfio, desconcertado, que é de onde viemos e para onde iremos. É o que não fomos, nem seremos.
 
Publicado no Diário Popular
 

Nenhum comentário: