7 de set de 2012

Independência ou sorte II

Há dois anos, publiquei aqui análise sobre o 7 de Setembro. Encaminhada de pai para filho, a Independência que comemoramos instituiu uma monarquia centralizada nas mãos do herdeiro natural do reino português. Foi o primeiro jeitinho luso-brasileiro, concluí. Mas hoje não vou tratar da história do Brasil. A data tem para mim um outro significado bem pessoal. Neste mesmo dia, em 1995, falecia meu avô. Em e-mail que recebi semana passada, uma tia minha lamentava a aproximação da dita efeméride familiar, em que perdeu seu pai. A seguir transcrevo a resposta que lhe enviei.


Guardo vivas minhas lembranças do velho Dedé. Estão lá, no bolso esquerdo do peito, junto com a balinha de hortelã e o lenço. Posso vê-lo em frente a casa, na cadeirinha de praia, bermuda de pernas arremangadas, camisa listrada. Canivete na mão e a vida longa nas cascas das laranjinhas esticadas do céu.

Uma lorota daqui, um causo dali e piscava aquele olho azul, com a pupila estendida em 8 por uma faísca de pólvora que lhe sobrara de uma caçada. O bico sempre assoviando uma musiquinha ou outra. Boi Barroso, Xote Laranjeira. Muito depois, no século seguinte, quando eu ninava a Rafa, minha filha, soprava-lhe as mesmas melodias, pensando nos velhos e nas gerações futuras. Somos um processo. Uma continuidade na existência. Não estamos aqui de passagem. Somos a passagem.

Naquele seu derradeiro ano, passava defronte sua casa, meio chateado, de volta de um namorico que terminara. Dei sinal e saltei do ônibus. O vô estava sozinho. Foi a minha sorte. Sem que soubéssemos teríamos nossa última conversa. Contei-lhe de minhas desventuras amorosas e como estava sofrendo com aquilo. Mas não me lembro de nada que ele tenha dito ou aconselhado especificamente sobre o assunto.

Deve ter sido algo bom, pois o problema foi esquecido naquele exato instante. Recordo bem mais de outras coisas que disse e das histórias engraçadas que contou naquela ocasião.

Narrou uma série de cenas de caçada de capivara e outros bichos. Causos pra lá de surpreendentes. Fantásticos. Impossíveis. Era puxar o gatilho daqui e o bicho deitava lá, contava o avô com brilho molhado na vista. Desacreditando de suas bravatas de caçador, arrisquei, mais com ar de graça do que de ironia: “Pô hein, vô, o senhor não errava uma!” Ao que respondeu. “Claro que errava, rapaz. Mas essas eu não falo! Só conto as que acertava!” E rimos bastante juntos.

É isso o que fica. São as histórias que mais importam conservar e contar. E se aquela não era a namorada da minha vida, outras viriam e vieram e, bem..., os tirinhos que a gente acerta são os que valem. Os que erra, deixa pra lá.

É lição que tenho aplicado em vários aspectos da vida. Erramos aqui ou ali, mas enquanto estivermos na caçada, sigamos atirando, que às vezes se acerta em cheio. Quantas histórias teremos pra contar se tivermos um pouco da força e coragem daqueles antigos. E, assim como eles, que se foram um tantinho antes de nós, continuaremos vivendo nas histórias dos que nos sucederem.
 
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