16 de set de 2012

Fábrica Marca Diabo

Algumas histórias sempre devem ser contadas outra vez, e quem sabe, no aumento de um ponto ganhamos, se não em qualidade, em quantidade. Ponho na roda hoje a malograda empreitada industrial de Simões Lopes Neto, mais especificamente no ramo tabagista. Pois então, acende um mata-ratos aí e vamos nessa!


Apesar de abrir sua fábrica de cigarros como Diavolus, a ela se referia como Marca Diabo, nome que se supõe não ter conseguido registrar pela fumaça do bom direito ou constante incensação da igreja. A grande sacada, entretanto, teve apelo popular, logrando de imediato um sucesso diabólico. A (mal) dita marca ficaria mais tarde associada à mercadoria barata ou de baixa qualidade (entre aspas), antes talvez pelo fracasso empresarial, que aparentou ser fogo de palha. As razões para a bancarrota, contudo, analisaremos em outra oportunidade.
 


Buscando dados sobre o negócio, deparei-me com um problema histórico, ou melhor, historiográfico. Onde ficava a tal fabriqueta? No 2º volume de Pelotas: casarões contam sua história, de Zênia de Leon, de 1994, sugere-se a produção com espaço numa das antigas cocheiras do palacete eclético-mourisco, localizado na Paissandu (hoje Santa Tecla), defronte à Praça do Pavão. A informação é repetida no 5º volume da mesma coleção, de 2005. Ali teria morado, ainda menino, com o pai e posteriormente seria também seu primeiro lar de casadinho. Quase em ruínas arabescas, hoje está em interminável inventário pelo que soube, não mais pelos Simões Lopes.

A indicação do Palacete da Paissandu como local da fábrica pela professora teve alicerce (ou reboco) na descrição oferecida por Ivete Simões Lopes em suas memórias sentimentais. A sobrinha-neta do autor descreveu, ainda que de modo romanceado, o momento em que o escritor anunciou sua decisão de abrir o estabelecimento do capeta. Diz que em certo almoço em sua casa, discutia-se sobre a escassez de indústrias na cidade e eis que, deixando a mesa, teria se dirigido à sacada e apontado aos galpões asseverando: “estou pensando seriamente em instalar ali uma fábrica de cigarros.” Os convivas aplaudiram e brindaram. Que casa seria essa? A sacada não seria um balcão?

Em 1901 os jornais noticiaram o lançamento da nova indústria de fumos. Acontece que João Simões vendera o imóvel da Paissandu em 1897. Teria ele demorado quatro anos para levar a termo a ideia dos cigarros? Ou já estava em outra propriedade quando teve o insight vicioso? Os anúncios publicados, de acordo com sua biografia de Reverbel, davam como endereço industrial a Rua Independência (atual Uruguai) e, como depósito, a casa na Sete de Abril (Dom Pedro II). Para esta mudou-se depois da Santa Tecla, conforme Aldyr Schlee, no seu Lembrança de João Simões Lopes Neto e é onde hoje está o Instituto com o nome do autor de Contos Gauchescos. Recuperar o palacete, todavia, seria um baita negócio (e não ao estilo marca diabo). Quem sabe não daria lugar a uma fábrica de cultura com espaço de escrita, leitura, teatro, música e cinema?

Mesma história de sempre, eu sei. Quem tiver uma nova, acenda um do capeta e conte.
 

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