3 de ago de 2012

Xucrismo pop

Absoluta em sua relatividade. A popularidade é bem assim. Todo mundo é conhecido no trabalho, na facul, nas redes sociais. Mesmo quando se é o mais antipático ou bizarro do ambiente, real ou virtual, o sujeito acaba se popularizando. Noutros tempos isso parecia ainda mais certo. Não conhecemos ou lembramos de alguém que nos adicionou ontem, mas guardamos, nome, nome do meio e sobrenome de colegas do 4º ano fundamental.
Na minha escola, em Porto Alegre, tinha um guri que apelidaram de Xucro. O Xucro era como o delicado nickname indica, xucríssimo. Mas assim, ó, torto de tão xucro! Os que se achavam emocionalmente mais espertos se arriavam nele até a exaustão de ambos. O Vanderlan, o Edu e até o alemão Schmidt, que era veterano nas xucrices, tiravam o seu sarro diário. O tal Vanderlan era o que mais judiava do infeliz. O.k. o.k., não se deve dizer judiava. Como se flexiona bullying, então?

A infância está sempre ali, na porta ao lado da memória. Nomes e caras de amigos são unha e carne. Tudo vivinho na cuca. Éramos analógicos e não sabíamos. Após o último ano, cada qual seguiu seu rumo. Será que algum daqueles piás teria guardado ao menos meu nome? Eu era quietinho. Tímido, dizia a profe. Aliás, esse Ezequiel está errado na minha graça. Eu até gosto, apesar de achar um nome foneticamente prejudicado. O zê raspa na ponta da língua. O fato é que minha família era Záquia. Meu bisavô que veio da Síria, nos anos 20, chamava-se Miguel Bichara Záquia. Claro que escapei de muita zoação na escola, pela omissão do pretérito mais que perfeito do nome do meio. E o Záquia virou Ezequiel por conta dum trago que o velho tomou na ocasião do registro de meu avô. Contam que o veterano bisa era xucro uma barbaridade, mal falando o português. Daí a confusão no momento de registrar o filho. Foi assim que de árabe da Síria, passei a ter nome de profeta de Israel. E pensar que a turma por lá se judia até hoje...
 
Seria massa se o significado dos nomes influenciasse na vida da gente. Na popularidade que fosse. No período em que lecionei História e Geografia lá em Porto, apresentava-me passando as origens etimológicas. Márcio da Silva Ezequiel. Botava no quadro. Márcio deriva de Marte, deus da guerra. Silva é coisa de português e tem a ver com selva. E, por fim, o Ezequiel, profeta bíblico, significando aquele que tem a força de Deus. Juntando os legos, expunha com orgulho e giz: Guerreiro da Selva que tem a força de Deus. E a gurizada adorava. Pena que depois desisti de lecionar, pois na verdade os pestinhas tinham muito mais força juntos do que eu. Legião, era o nome deles!
O Schimitão nunca mais vi. Ao que consta trabalha num escritório contábil. O Edu parece que é guitarrista de uma banda. Outro dia ainda, já na época do mestrado, havia um carteiro no ônibus que julguei ser o Vanderlan. Mas não tive jeito de perguntar se era o próprio. Também tenho minhas xucrices. Ah, e o Xucro? Avistei-o, lá mesmo, no campus, com um jalequinho branco. Contaram que hoje ele é professor universitário. Nunca descobri, contudo, seu verdadeiro nome e sequer o achei por Xucro no face.

Publicado hoje no




Nenhum comentário: