24 de ago de 2012

Imagens de Vargas

Suicidou-se Getúlio! Assim noticiava a imprensa há cinquenta e tantos anos. É complicado esse negócio de buscar a verdadeira imagem de um vulto dessa magnitude. Pai dos pobres, populista, ditador, mãe dos ricos? O certo é que sua morte foi o ato político de maior dramaticidade da história nacional. Uma aura de mistério criou vida naquele momento na cabeça dos trabalhadores do Brasil. O episódio em sua sequência imediata deixava margem para especulações sobre quem fosse matar-se não escreveria uma bonita carta daquelas. Ou ainda, quem vestiria o pijama antes de puxar o gatilho? O fato é que o baixinho já vinha se preparando para a saída estratégica. Deu certo, naquelas... Ao menos atrasou a “suba” dos milicos por uma década. Pois se as terríveis forças estrangeiras metiam o terror no presidente, seu inimigo interno usava farda e medalhas no peito. Na véspera do estampido final, a assinatura por 27 generais do Exército de um documento exigindo sua renúncia dava uma coloração verde-oliva ao futuro do Brasil. O desastroso episódio da rua Tonelero, foi um tiro no pé, não do vira-casaca Carlos Lacerda, mas do próprio Vargas. A tentativa de tirar do caminho seu principal opositor resultou na morte do major Rubens Vaz, da Aeronáutica, fazendo decolar a rebelião também neste segmento militar.

Se mais tarde a resistência ao redentor golpe de 64 (estou cheio de adjetivos hoje) precisou duas décadas para reconquistar a democracia, naquele momento ainda menos estaria madura qualquer reação para uma empreitada popular antigolpista.

No fim do Estado Novo em 1945, Getúlio já havia saído de boa ante a iminência de golpe. Voltou nos braços do povo para enfim deixar a vida heroicamente. A comoção da massa foi tremenda e toda enviesada. Teve manifestação de quebra-quebra em jornais oposicionistas nas grandes cidades e em frente às embaixadas americanas. Quebravam tudo, cuspiam e tacavam fogo em qualquer coisa que pudesse representar as forças misteriosas de que falara o presidente camicase. Tudo o que se parecesse ou levasse o nome de americano, como seguradoras ou bancos foram alvos da depredação do povão em luto. Claro que com os militares não se meteram, mesmo porque sequer compreendia-se a complexa rede política que pressionava o governo. Getúlio então virou santo. Até a oposição comuna repaginou sua imagem. Logo, logo, toda residência passou a ter quadros e estátuas com a figura de um Vargas bom-velhinho.

Na casa de meus avós havia uma estatueta de gesso, com Gegê sentadinho em degraus brancos. Uma mão no joelho e outra segurando uma cuia de chimarrão. Os veteranos adoravam aquela imagem. Ficava no balcão dos pratos ou na cristaleira de copos cica. Ocorreu que a tal estátua desapareceu. Diz que por terem ficado de porta aberta, alguém teria carregado. E nunca mais se viu. Deixou a cozinha da vó Elvira para entrar para a história.
 
Desde então, sempre que visitava algum antiquário ou mercado de pulgas, procurava por outro exemplar. Certa vez encontrei, em uma casa de produtos gauchescos, uma réplica em resina. Era caríssima e o dono me explicou que o original seria de bronze, de onde se tiravam aquelas antigas cópias populares em gesso, há muito esgotadas e de onde teriam feito agora aquela de “matéria”. Mas não era bem igual e vacilei. Não comprei e logo já não havia mais.

Há cerca de um mês, quando estive no Rio, meu queremismo encontrou resposta em um sebo antigo. Cópia idêntica àquela de minha infância, que só não julguei ser a própria pela falta de um detalhe que havia na nossa: uma das botas, um pezinho, que era quebrado. Com preço elevadíssimo novamente, deixei pra lá e conclui que, às vezes, a eterna busca por uma boa imagem pode ser mais importante do que finalmente achá-la.



Publicado no Diário Popular, 24/08/12.

 

 

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