11 de ago de 2012

Atletismo Mandrake

Tô nem aí pra Olimpíadas. Todos aqueles saltos, corridinhas e pulos. Até acho bacana, mas não consigo acompanhar. Falta-me perseverança. Acho extenuante a ginástica do controle remoto em casa. Pior que é igual ao Big brother ou novela, por mais que não se dê bola, sempre ficamos sabendo de algo. Esse ano diz que o evento tá verdadeiro bizarro show. Tem o tal cara com as pernas postiças (lá nele) que se superou e chegou em último. Vai ver caiu naquela dos últimos serão os primeiros. Pior que parece que a turma já estava questionando se com as próteses não lhe davam vantagem sobre os demais corredores. E teve a louca essa que congelou no salto com vara. Mandrake! Diz que foi o vento. Tá bão! O Brasil com suas medalhas não enche um pastel. Nem de vento, rárárá. Mas a gente fica sabendo, não tem jeito. Nem adianta correr da notícia.

Não vá se emburrecer comigo, leitor-atleta. É despeito mesmo. Meu corpo sempre foi desajeitado. Nunca tive noção de equilíbrio, de distância, de força. Minha descoordenação motora merecia medalha de ouro. Fui campeão de embaraços ao longo da infância e da adolescência. Triatleta na pagação de mico. Corrida, bicicleta, natação. Futebol, vôlei, basquete. Bola de gude, pingue-pongue e resta um. Nada de nada. O medo de errar muitas vezes fazia-me nem querer encarar o desafio.
Não sou o único desengonçado. Se até nossos atletas dão fiasco mundial, que se dane! Os padrões culturais atuais nos cobram corpos atléticos, ágeis e até, veja só, esbeltos. Isso exigiria horas diárias de malhação sem patrocínio. Fala sério! Somos estrelas da sala de estar. Campeões do revezamento televisão-computador-geladeira.

Dia desses, estava dançando com minha filha em casa e ela transformou nossa coreografia naquela brincadeira de ficar parado. Pulávamos ao som do The Byrds quando ela, lembrando a novidade trazida da escolinha, ordenou. "Estauta!" O quê? "Estauta, Mandrake!" Logo entendi a provocação e respondi como pude, congelando-me com braços para cima e pernas entreabertas. A pequena com sua percepção aguçada advertiu-me: “está errado! Não é assim, pai. Tu tem que parar que nem eu, oh!” Claro que do jeito dela era impossível concorrer. Sequer fazia sentido lúdico ou estético. Um braço em 9 horas e outro em 23 minutos. Um passo à frente e outro ao lado. A coluna interrogando-me sobre as leis da gravidade.

Atendi sua orientação, permitindo-lhe o domínio sobre o corpo do pai. Mas não pude deixar de lembrar o quanto sempre fui destrambelhado. Meu corpo histérico traduziu-se em palavras de criança, descrevendo-me como representar a tal imagem de congelamento da vida. Não tive medo de errar e arrisquei. “Assim?” Ela respondeu de boquinha arreganhada: “é, agora dança! Dança!”

Continuo descoordenado, mas já não me importo mais. Meu desequilíbrio na corda bamba de décadas a fio fora de eixo fez sentido naquele instante de orientação de quem ainda tem muito a me ensinar.
“Estauta”!

Publicado no Diário Popular

Nenhum comentário: