9 de jul de 2012

Texto Premiado

Leia a seguir o conto premiado 
no Concurso Glória Literária

 
Negrinho
  
Márcio Ezequiel


            Esta será uma história de extremos. Com início e fim. No meio, apenas um vazio.
- Vá chamar a Preta! - ordenou o Senhor ao menino todo fino de pés grandes. Tardava em dar um passo, dois, nem três em sua economia de caminhares. Temia deslocar-se em demasia. Do Negrinho apenas os garrões pareciam estar se desenvolvendo sob um corpinho delgado, sovado de nascença, desalimentado da vida. Passava horas solares de pé, num canto de sombra da cozinha, à vista da sala maior para quaisquer necessidades de providência. Ali dera os primeiros passitos e aprendera que ir longe não lhe era uma possibilidade. À noite, à falta de luz e movimento pela casa, sentava sob os largos calcanhares e, abraçando as cambetas, mantinha-se perto de si. A existência pensava  parecida a um eterno amanhecer. Sentia um peso enorme sobre os tornozelos. Algo em desproporção aos poucos anos que ignorava no desconhecendo contar. Um peso que lhe empurrava sobre o chão batido, como a criar raízes numa terra estranha. O barro socado da peça era escuro com rajadas de areia branca. Sempre úmido. Sempre duro. Sempre morno ante a casca gélida de suas solas amareladas de menino serviçal. Deu aviso e ficou na porta a espiar.
- Chamou, Senhor? – atendeu Preta Cozinheira.
- Prepare a mesa com toda sorte de pães e abra aquele vinho que mantenho reservado no aparador, pois que hoje temos visita importante. Visita de longe.
Onde seria esse longe? Tudo que o pequeno escravo conhecia era aquela cozinha, a sala grande e sabia de ouvindo da senzala, que não habitava com os outros. E no caminho havia o pátio. O Senhor rosetava fundo o zaino, avisando não ir longe, de sorte que nem a cavalo se podia alcançar o distante e misterioso lugar. Tantas vezes baixava aos calcanhares sob as ordens do Patrão, cujo comando fazia tremer de medo até aos outros, os grandes. Carregava o crioulinho na expressão um misto de ressaibo e desacorso. Nos grandes olhos, apenas uma noite sem fim.
 - Não fique aí parado, com cara de tolo, menino. Vá logo apanhar um copo d´água ao Monsieur, que o viajante está cansado.
A fim de aligeirar-lhe a passada, a jovem filha da casa, Sinhá Ruivinha, torceu-lhe nas unhas a pele do lombo, largando-o pontiagudo a galope. Ruivinha tinha feições miúdas. Os cabelos, castanho-alaranjadinhos, eram penteados com esmero. Andava muito arrumada com os vestidos trazidos de longe pelos irmãos doutores. O rosto sardento e os pés diminutos era o que tinha da mãe. Saiu, contudo, ruim no feitio do pai. Não poupava o pequeno dos martírios diários. Por tudo o cativo era punido. Não conhecia trato diferente dos demais afortunados herdeiros. Mesmo do temporão, sempre ganhava beliscões nas costas e carolos secos na nuca, fazendo sacudir todo o corpinho sem tirar os pés do chão. Igual ao cânhamo em dia de minuano. 
O estrangeiro era homem conhecedor das ciências botânicas e muito se agradava da produção na charqueada e comodidade no sobrado urbano do Patrão. De pés viageiros e cabeça científica, analisava não apenas a vegetação local, mas os habitats e as gentes. Conversavam em francês, que o Senhor era homem culto. Pelo ritmo das falas, o menino gostava de pensar que estavam entoando alguma cantiga.
No cair das noites frias, um pelego servia-lhe de cama. Sempre na cozinha. Sempre sobre os pés. Dali ouvia muito baixo o compasso de mãos dos outros, os grandes. A marimba e o estalar de línguas no ritmando de umas incompreensíveis palavras. Não trazia recordação muito nítida das canções que ouvia na senzala, antes de a mãe morrer. Onde estaria agora ela a mãe? Quiçá cantarolando em alguma cozinha distante... Lá no longe.
O comichar das pulgas subindo pelas pernas era de melhor jeito que a colcha de mosquitos nas noites de verão. Preta Cozinheira, ao contrário do que faria supor qualquer solidariedade de nação, tampouco lhe infligia menores castigos que os donos da casa. No final do dia, no retirando-se ao xale da senzala, lançava-lhe das vistas tortas, um olhar dúbio, que não deixava adivinhar ocasião de anteceder tapa grosso ou afago de moleira. De cabeça grande e uma orelha cortada, a mulherona era gordacha e tinha os pés inchados pelo pouco que deixava a cozinha.
O Negrinho conservava ainda considerável distância do fogão, desde que a velha lhe marcara o couro da barriga com um toco de pau em brasa. Para aprender a não estorvar quem estava trabalhando de verdade, ensinava a Preta. Para curar a ferida mais depressa e evitar infecções, aplicou-lhe espessa camada de sal, tapando-lhe o grito com uma manta de charque sobre a boca.
Feita a farta provisão de carne salgada, o estrangeiro seguiu sua viagem pelas águas do São  Gonçalo, numa sumaca do Patrão, até o norte, de onde partiu para Rio Grande em outra embarcação. O pretinho não conhecia rio. Nem rua. Nem barco ou carreta. Apenas seus pés de âncora na ala mais simples da casa de um nobre charqueador.
O Senhor era homem baixo e atarracado, com parecenças de oriental. Os cabelos mui pretos eram cortados retos no alto do cocuruto e no costado da gola da camisa sempre branca. A barba, bem aparada nos limites do pescoço e das bochechas, fazendo sobressair a queixada de ferro que tudo e a todos ordenava no sobrado e na charqueada. Nos pés, o som abafado das botas de pano forte exigiam respeito a quem honrava a opulência conquistada pelos pais, primeira geração de saladeiros que ergueu São Francisco de Paula.
Que ninguém parasse em seu caminho! O homem ficava louco. Certa vez pôs o Negrinho puxando de uma perna por uma porção de dias. O poltrão, a guisa de tirá-lo do trajeto de sua passada, moveu de sua bengala uma lambada de lei em cheio no joelho nó-de-pinho do infeliz. O moleque curvou-se em obediência, urinando-se de dor. Com a bota apertou-lhe depois a canela contra o assoalho da sala, por pouco não rompendo o osso saltado.
- Já te disse para não arredar esses pezões da cozinha, desgraçado!  
Após dar-lhe a paga por nada, o velho taura seguiu brincando com os filhos no pátio, que aos borbotões arreganhavam as bocarras em abastado regozijo familiar, enquanto o petiço claudicava latejando de volta ao seu lugar de dores. A Senhora vendo-o nesse estado, avaliava que nunca prestaria mesmo ao trabalho da charqueada, nem ao aluguel ou ganho. Na beirada da copa estava sua única serventia.
 - Observem que para um cativo remador, falquejador ou outras quaisquer atividades, o porte resistente e o corpo possante são fundamentais à boa produção – discursava ela numa tarde de chá e sarau com as amigas no pomar da residência.
Senhora tinha uma cor de rosto muito clara, cabelos vermelhos e faces rubicundas e pontilhadas, que o menino acreditava terem sido tocadas por brasa. Igual a que lhe imprimira a tisnadura repuxada no lado esquerdo do umbigo. Mulher charmosa, que nada devia a uma francesa. Educada. Tocava piano. Recitava poemas. Toda leve. Os pés pequenos e bem torneados pareciam lenços rosas no deslizando pela casa sobre sandálias de couro fino. Era quem menos lhe ferira, essa, a Senhorinha. Talvez porque guardasse um asco ao som de choro juvenil ou ao lamuriar de escravaria.
Apenas numa feita o castigou. Tendo julgado ouvir, após um levíssimo safanão, a palavra ‘fogo’ saindo dos beiços do crioulinho, despejou-lhe boca adentro o todo de um vidro de pimenta, que o fez suar as febres por cinco dias seguidos. Para aprender a não responder ou reclamar. Davam-lhe por morto, quando os tremores e gemidos cederam na mornidão boquiardente da noite delgada no peleguinho.
            Esta é uma história de extremos. Com início e fim. No meio, duas décadas que valem por dois séculos na cidade então rebatizada como Pelotas. Desde a morte da velha Preta, Negrinho assumiu a colher de pau e passou a cuidar solito das munições de boca da casa. Aprendera tudo no vendo o trabalho da Cozinheira lá de seu cantinho. A Senhora, já idosa, prometia tirar uma menina da costura e do zelo pessoal para ajudá-lo na cozinha. Não cumpriu a oferta, pois o caturritar da rapariga a divertia nas tardes ociosas de enferma monotonia. No assar de alimentos, o negro de pés esborrachados não descuidava o olho, nem a pança das quenturas do fogão. O mais difícil era mexer no forno para manter as achas acesas. Sentia o repuxando da brilhosa cicatriz.
            Os filhos varões da casa não estavam mais lá. Saíram um dia sem mais retorno. Viu o Senhor dizer que andavam nas terras daquele visitante de fala estranha que lá estivera há muito tempo. Talvez tivessem ido para o longe de vez. Só o mais moço, que ainda gineteava até a praia todo dia, e cantava no pernoitando de pá virada na varanda. A casa já não trazia o mesmo sortimento de víveres de outrora e o velho Patrão passava ventos e ventos fundeando no quarto, sem dar sinal de ordens pelo sobradão. A Senhora a bem dizer quase não mais se via. Andava adoentada de tosses, cambiando a sesta por cusparadas coloradas. Sinhá Ruivinha, vez por outra, pedia ao negro mancebo um chá para a mãe.
A existência no casarão, nesses derradeiros anos, parecia um interminável final de tarde. Pois foi justo num dia desses, de monótonos ocasos de ócio, que ocorreu a cousa bárbara! O som das botas macias do Senhor surpreendeu o rapazito no examinando a cicatriz amarrotada de sua desinfância com a colher de pau, como a deslocar-se da barriga salgada pelo corpo acima.
- Vancê, crioulo bichado, vai ganhar já uma lição para não fazer porcaria na cercania do cozido de quem te alimenta, desgracento! E todo apotrado, desnudou a adaga e lançou a ponta no braseiro do fogão, enquanto vociferava endoidecido. De olhos parados na vermelhidão que pegava na ponta do instrumento, ouvia o queixo de ferro do velhusco a bater maldições de forja xucra. E suando de medo teve ganas de urinar-se. E eis que de supetão Negrinho puxou a faca incandescente da fornalha e, movendo-se ligeiro a guisa de impedir repetição de sua sina maldita, tisnou por diante o bucho do Patrão, empurrando a lâmina até o cabo. Após sapatear o desrnoteio, o velho fez senão guasquear no chão socado. A fumaça no ar deixou um cheiro de carne assando. Filetes rubros mesclaram-se no zebrado de terra batida da antiga cozinha. 
Ruivinha correu à porta para acudir e no encontrando o pai com a buchada na mão, contorceu-se a berrar o desespero.
- Virge’ Nossa Senhora, tição malvado! Que tu fizeste, diabo?
E ante o alarido do desfecho malevo, a Senhora, esforçou seus passos leves a seguir o pranto que rebentava no soluçar da filha. E como se entrasse de ímpeto na cena, tomou logo meio palmo de adaga no peito, espumando ardências boca afora, sem a chance de um gemido sequer. E o velho ainda roncando estropiado no chão, silenciou por uma pancada de espeque na cabeça. Ruivinha caiu de joelhos olhando os pais enraizarem-se para sempre naquele barro duro. E abraçando as pernas, enterrou as unhas sob o vestido, no raspando das coxas tiras de pele incolor. E o negro todo fino de pés grandes não deu mais um passo,  dois, nem três até ser apanhado e amarrado pelos outros, os escravos grandes.   
Com os pés firmados no assoalho da carreta, foi levado à Casa de Correção, partindo de olhos vendados da Rua Alegre de onde nada, no meio do caminho, tomava conhecimento. Apenas um vazio. Acostumado à vida dissoluta sem espaços, a sofrer humilhações, o excomungado fazia agora um certo gosto dos xingamentos públicos no translado. E pensava ouvir de novo aquele canto de incompreensíveis palavras e um estalar de línguas nas caçoadas com que era saudado. Batuques ritmavam no deslizando  das rodas do carroção. 
Após juramento sob os quatro evangelhos, o corpo de delito foi registrado na casa do infortúnio e o julgamento seria logo realizado. Interrogado o réu, nada foi capaz de declarar. O olhar do juiz não deixava adivinhar ocasião de anteceder sentença grossa ou o afago da inocência. A cidade clamava justiçamento por corda.
Ouvido o promotor e a filha no testemunhando o assassino foi, para alívio popular e de autoridades, condenado ao enforcamento em praça pública. A forca da cidade, toda negra, tinha seus paus fincados no chão batido de terra úmida. Ele sabia o que lhe esperava. A velha escrava lhe contara em várias deixas as histórias de esses os outros grandes que pisaram antes no patíbulo.  
A madrugada saiu linda. De manhãzita  a comitiva marchou, tropeando o cativo homem para a execução. E d´espacito, cruzou a última cancela do cárcere pro cadafalso. E no primeiro passo, no segundo, no terceiro e nos demais que não sabia contar, avançava pelas ruas da cidade tomando uma sensação de liberdade que nunca imaginara existir. E via as casas e o comércio e as calçadas e os passeios e os habitats e as gentes. O povo mirava-o em tom solene dessa vez. De peito erguido a cicatriz alcançava-lhe a altura do coração.
Não sentia temor ou dor, pois ele, aquele escravo, chamado de Negrinho, teria os pés suspensos de um chão que nunca foi seu. A eterna noite cerraria panos em seus olhos. Descobriria, enfim, onde ficava o tão longe dos outros e o tão perto de si.
E esta foi uma história de extremos. No meio, …apenas um vazio.


7 comentários:

Anônimo disse...

excelente mesmo, mereceu o prêmio!

Anônimo disse...

maravilhoso, apesar de não ser uma homenagem a cidade!
Gostaria de ler os demais premiados

Anônimo disse...

Márcio,
Parabéns, prêmio muito merecido.
Marcos Macedo.

Mario Gayer do Amaral disse...

Belo conto, Márcio.

Tu fizeste uma coisa que nunca consegui chegar nem perto de fazer, que é o jogo de palavras. Mas sigo tentando.

No fim das contas, atingimos nossos objetivos. Tu vencesse o concurso e eu adquiri experiências para concursos futuros.

Esperamos que um dia nós nos encontraremos no Sebo Monte Cristo, lugar onde tudo isso começou.

E não me arrependi de minha escolha por ti. Esse concurso só provou que eu estava mesmo certo em seguir o caminho das letras.

Não vou ganhar muito dinheiro, é verdade, mas vou ganhar algo muito mais importante do que isso: liberdade.

Mas essa mesma liberdade tem um preço terrível a ser pago, que é usarmos de nossos poderes escritos fenomenais dentro de uma lampadazinha chamada opinião pública que enaltece ou destrói, como por exemplo o que tu escreveste sobre o desarmamento.

Desde já mando um grande abraço

De seu pupilo, amigo e seguidor
Mário Gayer do Amaral

Márcio Ezequiel disse...

Valeu,pessoal! E, Mario, a luta é essa mesmo. Ganhe esse e mais alguns, mas perdi muitos outros concursos. Não aconselho ninguém a querer viver da literatura. Tirando jornalista e acadêmico, a coisa fica difícil de conciliar. Mas como atividade paralela pode ser bem gratificante. E nem sempre vão concordar com o que escrevemos. Ainda bem, do contrário, não haveria porque escrever. Por vezes vou estar errado. Talvez eu aprenda e mude de opinião, talvez dane-se. Mas se achar que estou certo finco o pé. 99 vão bater, mas se um ao menos refletir, já valeu a pena. É difícil o combate contra o senso comum e como me escreveu o próprio Marcos Rolim, não dá para parar, porque o mundo está cheio de senso comum. Abraço e olho na montanha e pé na estrada.

Manoel Magalhães disse...

Uma viagem ao abismo da história pelotense. Fantástico!

Solange Norling (dinda Sô) disse...

Parabéns Márcio,nossa!! gostei muito, parecia estar vendo os maltratos do negrinho, a boca ardendo, a barriga doendo,os pèzinhos gelados. Lembrei quando teu avô contava as histórias de épocas iguais.Até o momento este Conto é meu preferido. Parecia que eu estava no canto daquela cozinha assistindo tudo que se passava com o negrinho. Foi muito bom. Um abraço.