6 de jul de 2012

Outros 200 anos



É amanhã, no sábado (7) o grande dia. O tão falado bicentenário de Pelotas chegou. Data de comemoração para alguns, de protesto para outros. Isto ocorre pela pluralidade de cidades dentro da cidade. E aquele que olhar somente uma de suas faces não a decifra e será devorado por sua história. Uma floresta só tem raízes se vista desde dentro, tronco a tronco.

Que cidade é essa que vira duzentona? São Francisco de Paula, Princesa do Sul, Dark City, Satolep? Os nomes são muitos, pois a urbe é múltipla. Não há uma Pelotas apenas. É multifacetada. Equilibrada e contraditória. A bela e a fera adormecida. É universal e “umbigopolitana”. Tudo ao mesmo tempo.

É cidade-fonte. É rotatória e barro duro. Canal e ponte. É busão cheio, carro vazio e Maria Fumaça apitando no escuro. A cidade é pessegada, quindim e pastel de santa clara. Cidade-monstrinho, Laçador e Miss Brasil. É Xavante e Lobo. E é o lobo do Lobo e de todos os seus poetas loucos de cara. É cidade bola no tabuleiro de xadrez. É planeta quadrado.

Cidade-caixa d'água e cidade-aquário. É fragata que navega no areal. Ligação direta a distância. É Duque, Dom Pedro e Donja. Cidade a cobrar. Pestano, Arco-Íris na sombra. É Tarzan a cores. A soma de suas partes é maior que o todo. Toda prazeres e dores. Tudo ao mesmo tempo.

É cidade-barão. Cidade-charque. É cidade-escravo. Cheiro de terra e de sangue. Tem o gosto da lágrima. Cidade armada. Cidade invadida. Alegre em dia de parada triste. E quieta em dia de Carnaval. É liberdade e festa. Cidade gay. É samba, discoteca. É sarau. É colônia. É medieval - barroca e gótica. Seresteira depois da sesta. Pelotas se escreve no plural! Tudo ao mesmo tempo.

A cidade é porto vazio. É ruína de castelo. É lenha úmida na fogueira. É calçadão e projeto de shopping com mofo. É camelódromo com receita de bolo. Pelotas é o palco da cultura em teatro fechado. A cidade faz cinema sem cinema. É um sebo de livros novos. É o antiquário do depois de amanhã. Mirante e porão em casa tombada. É relógio parado. A cidade é universitária, caloura e veterana. Formanda de palco e gabinete. É vegana e carniceira. Ecológica e vampira. Pelotas é um casarão, um grande hotel. É palafita. É cabeluda. É careca de chapéu.

Duzentos anos pra quem? Para você, trabalhador, patrão, operário, empresário, professora, estudante, padre, dona de casa, palhaço de circo, doutor advogado, dentista, médico, garota de programa, brigadiano, borracheiro, grafiteiro, ateu, pedreiro, à toa, padeiro, taxista, prefeito, diarista, jornaleiro, jornalista, outro jornalista. É duzentos anos pro gari, pro guri e pro cara da praça tocando numa vassoura-violão. Os duzentos anos são para a Preta e para o Alemão. Para o aviador e para o médico louco. De todos temos um pouco. Ao mesmo tempo.

E o depois de amanhã, que dia será? Você decide.

Mas aí já são outros duzentos.

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