20 de jul de 2012

Comportamento animal


Certa vez, perturbei um amigo, Volnyr Santos, com a seguinte frase: a consciência foi um acidente evolutivo. O professor ficou dias matutando sobre o assunto. Pensar sobre a consciência é um metapensamento. É olhar o próprio umbigo na sala de espelhos. Poderia ser qualquer outra coisa. Por que não? Poderíamos ter desenvolvido asas, mudar de cor, de temperatura, telepatia, mas a evolução nos legou esse outro atributo. A consciência. Não é melhor, nem pior. Simplesmente  diferente. Claro que no pacote vieram também as crises existenciais, os traumas, as culpas e as mágoas. Penso besteira, logo a psicanálise existe!

Entrementes, surge no mundo científico agora uma novidade. Neurocientistas publicaram há pouco um manifesto afirmando que os animais também têm consciência. De acordo com Philip Low, pesquisador da Universidade Stanford, dos gringos, todos os mamíferos, algumas aves e até polvos teriam graus diferentes de percepção. Na essência seriam regidos pelos mesmos mecanismos que nossa exclusiva consciência 2.0. Não se confunda com a senciência, já apontada como a capacidade de ter sensações provocadas pelo meio. E sim, a capacidade de perceber-se e agir além do simples reflexo instintivo.

O objeto da pesquisa partia da captação das ondas cerebrais para então as traduzir em comandos ou códigos possíveis de serem lidos por um programa de computador. O invento já tem nome, i-Brain. Antes que você imagine uma máquina para ler os seus pensamentos mais ocultamente acariciados, a aplicação visa possibilitar que pessoas paralisadas ou incapacitadas de se comunicar, como o físico Stephen Hawking (lá nele), consigam expressar-se através de um sintetizador de voz. Ele já usa uma voz eletrônica, teclando precariamente. Agora seus impulsos elétricos geniais serão convertidos diretamente em palavras. Até aí, tudo o.k. Porém, ocorreu que mapeando atividades cerebrais em humanos e animais, já que estes sempre são as primeiras cobaias em laboratórios, descobriram que as estruturas que distinguem nosso cérebro demasiadamente humano dos demais amiguinhos de pêlo e osso, (como o córtex), não são os únicos responsáveis pela consciência. 

O dito manifesto foi assinado sábado em Cambridge por Low e diversos outros cientistas de renome, incluindo Hawking. Alerta-nos, assim, que há pensamento fora de nossas caixas encaracoladas ou alopécicas. Há nisso tudo uma ironia ao nosso sonho de achar vida inteligente fora do planeta. Ela sempre esteve aqui, debaixo (ou atrás) de nossos focinhos.

Alguns dirão, é óbvio, eu já sabia. Outros, contudo, discordarão, pois logo ali, no virar da página eletrônica, surgem indagações éticas e filosóficas que decorrem da nova hipótese. O próprio cientista que encabeça a lista pondera, de modo bem pessoal, tornar-se vegetariano, embora admita que adore queijo. Farei contato com ele depois pra explicar a diferença entre vegetarianismo e veganismo, rá-rá-rá! Low faz uma bela constatação que no mínimo leva à reflexão. "Não é mais possível dizer que não sabíamos.”

Tenho que contar ao professor Volnyr. A consciência não foi um acidente evolutivo exclusivo ao homem. Apenas se desenvolveu um tanto mais em nossa espécie. Nem pior, nem melhor, simplesmente diferente. Temos a ferramenta. Só nos falta agora saber usá-la.


Nenhum comentário: