29 de jun de 2012

Texto de hoje no Diário Popular

Acesse aqui os links citados em minha coluna no jornal.
Obs. O filme abaixo está no youtube.
Não postei lá. Se gostar, adquira uma cópia legal.




Nos últimos dias engatilhou-se novamente o assunto do desarmamento. O senso comum vangloriou-se com um rico dum exemplo para suas teses de rasteirinha baleada. Refiro-me ao caso de dona Odete, não a Roitman, mas a tal senhorinha que atirou e matou um ladrão que invadira sua residência. O discurso da maioria segue o manifesto no plebiscito do desarmamento ocorrido há alguns anos. Ou seja, o brasileiro defende com unhas e dentes o direito de ter um tacape de fogo para proteger sua caverna. Dizem que se não estivesse armada, a velha mulher teria sido morta sem chance de defesa. Não vamos adentrar no campo das possibilidades, pois do contrário arrombaremos a porta que dá acesso a infinitos universos paralelos. Miremos no que tem de mais vital nessa história toda. A chacina do raciocínio, o que vou chamar de “raciocídio”.

A violência reside no fato que tomar um caso, que deveria ser analisado em si, como universal. Serviu como uma luva aos que acham pertinente ter um pistolão em casa. Saia da defensiva e vamos pensar quem está mais interessado em manter o armamento doméstico. A indústria? Certo. O comércio? Óbvio. O cidadão de bem? Lindo! E a imprensa? Pula essa. Ótimo, você fez o tema de casa do senso comum. Continue assim, o Ratinho e o Datena precisam de audiência.
Sugiro que no próximo Natal compremos para nossas mães e avós três-oitões niquelados com cabos de madrepérola. Pistolas nove milímetros. Diz que a ponto quarenta é a melhor no efeito stopping power. Que tal uma M-16? Ou um fuzil, uso exclusivo do Exército? Será a guerra fria no clube das mães. Quem se armar mais ganha um cachecol ponto zigue-zague.

A essas alturas você já está tenso de pensar que advogo pro diabo ou que sou mais um da turma dos direitos humanos que defende bandido. Eu sei. Repita bastante e use todo seu arsenal de argumentos de festim e talvez eu acredite que um mundo em que as pessoas se matam seja o melhor. Desde que um cabeludo ancestral teve a sacada de bater com um pedaço de osso no crânio esquelético de um semelhante seu, que pau é pau e pedra é pedra.

Armas de fogo deveriam ser eliminadas não somente do Brasil. Da humanidade. Nossa sapiência foi capaz de engendrar um aparato que acionado uma, ou repetidas vezes, é capaz de interromper a vida de outro sapiens-sapiens. Genial! Quantas pessoas você conhece que se salvaram por ter uma arma? E quantas morrem alvejadas diariamente. Dá uma procurada aqui no jornal e faça suas estatísticas. Seu relatório azul vai deixá-lo surpreso. Também morre quem atira, ou como você acha que fica a vida de alguém que matou, mesmo em legítima defesa? Mecanismos (literais) de dominação e resistência escreveram com sangue todas as páginas de nossa história. Lennon, Luther King e Kenedys que o digam.

Para quem quiser mais munição na defesa da paz, contra o senso comum, sugiro assistir ao ótimo Tiros em Columbine (2002), de Michael Moore ou ler Desarmamento: evidências científicas (2005), de Marcos Rolim. Deixei links para os dois no meu blog, endereço acima.

Publicado no Diário Popular, 29/06/12.

Tiros em Columbine






6 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns pelo artigo de hoje. Aceitei a recomendação e dei uma olhada lá na página policial do DP: Uma morte por arma e uma ação da PF impedindo que mais armas fossem distribuidas na região.
Mara

Anônimo disse...
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Márcio Ezequiel disse...

http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=439189

Lint disse...

Primeiro, todos nós somos a favor do completo desarmamento de toda a humanidade, infelizmente desde que inventaram o tal primeiro tacape isso NUNCA aconteceu, e provavelmente nunca vai acontecer. O desarmamento não desarmou nenhum bandido, só desarmou o cidadão de bem, se houvesse algum meio de garantir que ninguém mais tivesse nenhuma arma (de fogo ou não), eu prontamente abriria mão das minhas.

Segundo, decidir pelo NÃO à proibição dos civis com armas de fogo não obriga, nem nunca obrigou ninguém a comprar uma, até por que é um processo extramamente trabalhoso no Brasil, mas é simples assim: Eu não quero obrigar ninguém a ter uma arma em casa, apenas quero não ser proibido de me defender, ante a tantas coisas que o governo já nos proíbe..

Terceiro e último, ficar estereotipando a pessoa que quer não ser proibida de ter uma arma em casa mostra o caráter de quem escreveu esse texto, que é triste.. Já pensou se eu ficasse aqui enquadrando todos os desarmamentistas como hippies ou pessoas sem um pingo de cultura? Ou ainda como pessoas que deixam a emoção falar mais alto que a razão? Se esse é o seu jogo, eu passo..

Eu poderia ficar aqui debatendo com você todo santo motivo pelo qual a idéia do desarmamento é infundada, a começar pela experiência empírica vivida no Brasil, mas eu sei que a pessoa quando entra religiosamento num argumento, não cederá por razão nenhuma no mundo.

Márcio Ezequiel disse...

Lint, valeu pela ponderação um pouco mais equilibrada do que apareceu até o momento, principalmente no site do jornal. Observe que a maioria fez uma leitura rasteira de meu texto, ressaltando justamente o caráter de senso comum, esse sim irredutível em sua defensiva. Eu aliás, já mudei de opinião inúmeras vezes quando me demonstram que estou errado. Os xingamentos lá no Diário não têm nada de razoabilidade. Alguns são para mim até elogio. Que pareço uma criança, ótimo; que vivo no mundo da fantasia, sou poeta. Acertaram na mosca. Outros acham que nunca passei por situação perigo. Fui assaltado 5x em Porto Alegre e tive o carro arrombado 2x. O que ocorreria se eu, cidadão de bem, que tivesse minha arma para a defesa pessoal estivesse armado e me confrontasse com os bandidos? Acho que não estaria aqui escrevendo, por ter matado ou sido morto. Outro comentarista de minha crônica, veja bem, é crônica, opinião pessoal, não é reportagem policial ou bíblia, identificou-me como servidor público federal (ou barnabé da Receita, como disse). Será que não ocorreu ao leitor que talvez, somente talvez, eu tenha recebido treinamento de tiro? Que já tenha pegado em arma de fogo? Quiçá atire muito bem? Eu só lamento que as pessoas não deem o passo a seguir. Cobrar das autoridades públicas mais segurança e educação por exemplo. Porque do jeito que está, o modelo do cada um que se defenda, parece-me não estar dando certo. Vamos acabar igual aos americanos, sentados no fundo de um bunker com um rifle na mão esperando os soviéticos, os fundamentalistas ou os vampiros atacarem. Talvez eu esteja equivocado, prometo pensar no assunto. Mas acho que mais pessoas morrem por motivos fúteis nas mãos desses mesmos cidadãos de bem, do que defesas em invasões de residência. Dê só uma olhada nas páginas policiais e tire suas conclusões.
PS. Não tenho nada contra hippies, aliás eles não fazem mal a ninguém.

Skullmann disse...

"Enquanto a legítima defesa for crime... Bem, eu serei um 'fora da lei' com convicção.

Opinião, cada um tem a sua. Na reportagem do CP, inclusive, está lá, "porte ILEGAL de arma", sem falar no assassinato, mas enfim, não vejo necessidade de um revolver pra matar no trânsito, não dirigindo um veículo de 1t. Sem falar que assassinato vira "acidente" e a pena diminue...

Mas com relação as velhinhas armadas, até que seria bom, pelo menos bem melhor do que esperar "ajuda oficial", aquela que deixa a mãe e as filhas algumas horas esperando por uma viatura (lembra desse caso, em Canoas?) e DEPOIS delas serem estupradas, chega pra colher os depoimentos e fazer o corpo de delito...

Enfim, um mundo em que o GOVERNO proíba escritores de dar opinião é o próximo passo no rumo da total falta de liberdade, essa que você, ainda que indiretamente, defendeu.
Pois não se trata do direito de matar com, de portar, ou sequer do direito de comprar uma arma de fogo, mas do direito de opção e de não ser forçado a "oferecer livre e espontaneamente", ou seja, por OBRIGAÇÃO, sua vida (em todos os aspectos conotativos) nas mãos da classe mais corrupta do País – O Político.

Mas vamos lá, você que é contra o M-16 nas mãos da minha avó, - afinal ele é de uso exclusivo do Exército! Mudaria de idéia prontamente se minha avó estivesse alistada então?
Pela sua análise, NÃO temos o “bom” armamento, que está na mão “da lei” (daí você admite que o policial mate em nome da lei? Ou pra defender sua vida num confronto com... um traficante, por exemplo?), e o “mau”, o que está em poder dos bandidos, e que vai causar somente desgraça e maldade (ainda que aquele traficante mate o policial, pra não morrer no confronto do exemplo, estaria errado. Ou não?), mas apenas armamento desnecessário a boa convivência e harmonia social... Que lindo isso. Pelo jeito, você acha que é um ‘trinta e oito’ que molda o caráter das pessoas. Minha sugestão: Vamos pular a numeração do 37 direto pro 39, pra que nossos jovens JAMAIS tenham que entrar em contato com esse número maldito então, hahaha.

E que eu me “lembre”, antes de usar “tacapes” (e pedras, flechas e bazucas), seres humanos (como de resto, o fazem ainda todos os outros animais) usavam... dentes, por exemplo. Sem falar nas plantas carnívoras, nas peçonhas das águas vivas, espinhos de cactos...