2 de jun de 2012

Prezado Leitor

Se há uma coisa que sempre achei bacana nos escritores consagrados, nos cronistas de verdade, dos maiores de todos os tempos, é o diálogo que rola com seus leitores. Das correspondências de fanzocas aos consultórios sentimentais, quanta inveja! Ao responder a uma carta que lhe apresentou uma dúvida qualquer, elogio ou crítica, desdobra os espaços simples de uma coluna de jornal e as palavras podem transitar em voz alta nas entrelinhas. Reconciliações silábicas ocorrem a cada frase e escrever já não é tão solitário.

O autor cita somente as iniciais do nome por precaução jurídica ou talvez por economia de liberdade para com o admirador revelado. Começa assim: o leitor S.M. pergunta por que e para quem escrevo. Daí discorre livremente sobre aquele tópico indagado e a viagem da crônica voa alto, alto. Isto quando não responde diretamente. Prezado leitor, blablablás, assim, assim, assim. Cria uma intimidade de um ponto a outro. E ganha a cumplicidade de um ser invisível, que somente acreditamos existir quando estamos aí, nos lendo em voz baixa, do outro lado das letras. Claro que o escritor é um fingidor que finge tão completamente, que pode fingir mesmo que há um leitor que deveras sente. Vai saber? Ninguém é tonto de acreditar nas cartas enviadas a revistas melosas ou sensuais.

O certo é que a interatividade na redação é mais antiga que a tecla backspace. O bruxo Machado de Assis mesmo ao questionar se de fato era lido por alguém, não perdia oportunidade de transcrever algumas linhas recebidas, como em 1862 de um poeta que lhe dizia: “É triste este viver assim, quando ainda em meia-vida, o espírito cansado se volve ao passado procurando embeber-se dele, porque o futuro está morto, ou pelo menos despido de todas as ilusões da juventude!”

Clarice Lispector, que confessou sempre sentir um lado charlatão seu à espreita, também não desperdiçou lirismo ao responder a uma leitora que lhe agradecia a capacidade despertada para o amor à humanidade. “Mas, H. M., como você me fez sentir útil ao dizer-me que sua capacidade intensa de amar ainda se fortaleceu mais. Então eu dei isso a você?”

Pois ainda voltando-me ao passado, lembro da crônica A palavra, de Rubem Braga, em que de tanto escrever, observou que dificilmente não houvesse ferido alguém no imprudente ofício de viver em voz alta. Mas falava também do consolo de saber às vezes que alguma palavra dita fizesse bem a outrem. “Alguma coisa que eu disse distraído - talvez palavras de algum poeta antigo - foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém.”

Na semana passada meu texto de simpatia pelo demônio recebeu um comentário elogioso no site do jornal. “Simplesmente viajo em seus textos, Márcio. Muito obrigado por esse dom e compartilhá-lo conosco.” Ao que respondo a seguir.

Prezado, leitor M.M. Agradeço a preza das palavras e confesso que sempre ao refletir por que escrevo, penso que não sei, nunca sei, porém, arrisco agora concluir que é senão para isso mesmo. Para viajar bonito até aí, do outro lado das letras e colher a ilusão de que alguém leia estes meus blablablás, assim, assim, assim.
Publicado no Diário Popular, 01/06/2012.

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