24 de jun de 2012

Sobre academias, religião e arte


“Eu não pertenceria a um clube que me aceitasse como sócio”. A frase de Groucho Marx ficou famosa numa fala de Woody Allen em Annie Hall, película cujo título ganhou nariz de palhaço e bigode postiço, na versão brasileira, como Noivo neurótico, noiva nervosa. Recorro à citação para disfarçar o que abordarei. A vida imita a arte.

Ano passado fui convidado pela Dona Zênia para integrar a Academia Pelotense de Letras. A cartinha está guardada no lado direito da mesa de trabalho, onde me visitou. A gentileza da professora por pouco não me levou a vestir a beca. No último momento, declinei. Expliquei não ser dado a formalismos e não dispor de tempo para me dedicar à confraria. Solicitado a repensar, registro então minha convicta resposta. Agradeço o reconhecimento, mas não vai dar. E respondo de público, pois publicamente fui achincalhado pela minha decisão. Não por ela, que é um doce. Em palestra que proferi de bom grado na dita agremiação, semanas atrás, cutucou-me com pena curta um de seus confrades, argumentando que ao ser eleito não caberia aceite e por aí afora. Que a recusa seria antes ofensiva à escolha do grupo. A despeito do sujeito não fazer eco na Academia, tampouco foi contestado pelos demais presentes. Sem ressentimentos. Tive minha réplica e pude expor o que penso e dispenso. Contudo, mais do que nunca eu não pertenceria a um clube que me obrigasse a ser associado.

Nada juridicamente pessoal. Admiro quem se reúna pela cultura e pelas letras e até gosto de um bom chá com biscoito. Só não tô a fim de participar assim, de carteirinha. É contra meus princípios de principiante. Deixem-me contar um pouco de minha trajetória antissocial e verão que não faço por mal. Simplesmente, nada a ver comigo.

Desde criança fui avesso a grupos. E, por óbvio, eles a mim. Não era dos que brincavam sozinhos no recreio, apenas não me integrava direito nem aos CDFs, nem aos arteiros. Tímido, olhinho torto, meio gaguinho. Era até bonitinho e sofria assédio, vez em quando, de alguma debochada ou outra. Minha autoestima, entretanto, era quase um atentado violento ao despudor.

Não houve futebol ou religião que me salvasse da xucrice. Milagre não sucumbir na misantropia. Não trocava figurinhas com ninguém. Aliás, sequer as tinha. Nem aquelas com caretinha de jogador. Lembra?

Eu era estranho já de piá. Falava com Cristo... Uma vez até respondeu. Acredito ter sido uma folhagem na garagem do prédio em que morávamos, o que não vem ao caso agora. Mais tarde questionei a catequista sobre a Inquisição e virei protestante um dia após a comunhão. Cinco anos de dízimo depois, apostatei. Não curtia rituais exóticos. Lava-pés, santa-ceias, povo eleito. Fui embora e não voltei. Ninguém deu falta, graças a Deus. E olha que pra não virem atrás de ovelha perdida o caso é sério. Enfim, tampouco me filiei a partido político e nem à reunião de condomínio vou hoje em dia.

Olha só. Pra ser sincero, não acho que as abobrinhas que escrevo por aí sejam dignas de louros. Verdade seja dita, ainda que meio disfarçada. Óculos, nariz e bigode postiços são tão autênticos quanto o próprio Groucho. A arte imita a vida. Diane Keaton, a noiva nervosa, é o nome artístico de Diane Hall que, nos anos 70, namorou com Woody Allen.
Publicado no Diário Popular, 23/06/12.

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