29 de mai de 2012

Rock: Além do bem e do mal

Nem tanto ao céu nem tanto à Terra. Não é possível ser totalmente bom, nem completamente ruim. Houvesse somente um deus bondoso, seria de quem a responsabilidade pela criação do mal? Houvesse um ente absolutamente malévolo, por que não eliminaria logo um criador impedido de duelar, matar ou revogar o livre arbítrio? Todo mal perderia o sentido e se tornaria um bem absoluto. Não fiquemos, porém, na especulação filosófica. Vamos adentrar na arte.

Todo absoluto só tem sentido ante o seu oposto. Em toda grande dupla musical há uma dualidade demasiadamente humana. Um equilíbrio das forças. Vide Lennon e McCartney, Richards e Jagger, Raulzito e Paulo Coelho, o Elvis pré-exército e o Elvis gordo.

A famosa canção Simpathy for the devil (Simpatia pelo demônio), dos Stones foi gravada em 1968 e fala de um ser que teria visto cenas históricas por séculos. Jagger pede para que se adivinhe seu nome. A dica estava lá, dada no título da música. Em determinado trecho, ressalta o dito dualismo: “Todo policial é um criminoso, todos os pecadores são santos e cara é coroa”.

Na quarta-feira (23) em palestra a que assisti em Brasília, Nelson Mota confirmou a versão de que em visita ao Brasil em 1968, os Stones foram levados a uma escola de samba, o que deu a ginga e a batucada para a canção dita satânica. Tudo bem, afinal, Deus é brasileiro. A inspiração para letra teria vindo de um romance russo iniciado em 1928, de Mikhail Bulgakov, no qual o Diabo visita Moscou e entre outras declarações alega ter conhecido Cristo. O livro é uma alegoria sobre o bem e o mal. A epígrafe é tirada do Fausto de Goethe, "-...mas, quem é você, afinal? - Sou a parte da força que quer sempre o mal, mas sempre faz o bem".
Toca Raul! Toca Raul! Quem já não cantou que nasceu há dez mil anos atrás? A famosa letra escrita por Paulo Coelho e Raul Seixas (mesmas iniciais de Rolling Stones) fala de um velho mendigo que conta tudo o que viu desde o nascimento milenar e que não tinha nada nesse mundo que não soubesse demais. Tá ligado, né? Canta assim: “Eu vi Cristo ser crucificado, o amor nascer e ser assassinado. Eu vi as bruxas pegando fogo pra pagarem seus pecados”. Depois viu Moisés, Maomé, Davi, Hitler, Zumbi. Esta música é de 1976 e há outra muito semelhante que foi gravada pouco antes por Elvis Presley, em 1971. I was born about ten thousand years ago. There ain't nothing in this world that I don't know. E diz que salvou o rei Davi e ele lhe ofereceu uma esposa. E viu Noé construir a arca e viu Pedro, Paulo e Moisés. Cruzou Canaã e por aí vai. Trata-se de uma canção gospel tradicional americana, tendo inúmeras versões anteriores, ao que se considera a primeira a de 1928!!! Sim, mesmo ano do romance russo, gurizada conspiradora! E se somar os algarismos de cada dezena, temos dez nos dois resultados. Dez mil pirações do rock!

Essa metamorfose ambulante; essa dialética de Deus e o Diabo na terra do som não será o mecanismo em si do rock? Essa parte maldita de todos nós não seria a que nos faz mais humanos?

Em All those years (Todos esses anos), os Beatles reafirmam a dualidade. “Vivendo com o bem e o mal, eu sempre olhei pra você. Agora nós fomos deixados frios e tristes. Por alguém, o melhor amigo do diabo.” Noutra canção, um mantra do quarteto, inspirada na lista telefônica, repete-se insistentemente: “Você sabe meu nome, descubra o número”. Som do capeta, diga-se de passagem!

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