9 de mai de 2012

Pode confiar!

Homem bocejando, de Franz Xaver Messerschmidt
Nas últimas semanas toquei em alguns pontos polêmicos por aqui. Vegetarianismo. Religião. Descobrimento do Brasil. Uva com melancia. Não quero melindrar ninguém, mas a crônica é assim. Cutuca para provocar uma reação. Durma-se com uma cosquinha dessas! Mesmo quando se discorda diametralmente do articulista, contemplasse as próprias concepções, oxigenando os pensamentos. Vez por outra é até possível mudar de posição. Mas sempre deve ser um movimento espontâneo do leitor. Não intento aqui catequizar barbado algum, nem ameaçar aquela velha opinião formada sobre tudo.

Agora vou pegar leve. Nada de desconfortos. Não quero perturbar o sono de ninguém. Palavra! Pode relaxar. Entregue-se. Viu? Você está ficando relaxado... Boceje se quiser!

Sabia que o bocejo é um dos mais ancestrais reflexos condicionados do mundo animal? Sim, não se trata de privilégio humanoide. Cães, gatos e outros bichinhos também bocejam. A principal função do bocejo seria oxigenar o cérebro, diminuindo as taxas de dióxido de carbono no sangue. O dióxido de carbono também é conhecido como gás carbônico ou anidrido carbônico. É composto por um átomo de carbono e dois de oxigênio. Não se entedie, estou tentando falar de assuntos objetivos. Nada polêmicos. O bocejo é comumente associado ao tédio e ao sono. Abrindo bem a boca e inspirando profundamente, seus pulmões se enchem de ar fresco para logo expulsar o baforão de carbono acumulado no peito. A sensação é de bem-estar.

Dizer que o bocejo é contagioso nos faria bocejar na obviedade. Bem nessas! Em situações de aglomeração, como em elevadores, ônibus ou reuniões de trabalho, uma vez disparado o boquiaberto círculo vicioso, a reação em cadeia cria um rosário de ai-ais. Cientistas atribuem o efeito à percepção inconsciente da falta de ar em locais lotados. O cérebro é o responsável, o cabeça que impõe o espasmódico tique. Nas origens mais primitivas do bocejo estaria um recurso de defesa. Com a bocarra posta no mundo, mostravam-se as presas ao inimigo ou ao vizinho de caverna. Já as neurociências têm observado o fenômeno em situações de desaprovação pública, quando surge a necessidade de disfarçar um inconveniente. O fato é que nem Freud explica o mito do eterno bocejo epidêmico.

Outra reação estranha que temos são as cócegas. É o cerebelo que nos incita a reagirmos ridiculamente a qualquer contato inesperado no corpinho. É por isso que ao tocar em nossos próprios pontos coceguentos não temos bizarros faniquitos. O córtex no fundo é um sádico. Prevendo que o corpo será apalpado e até mesmo a pressão que será exercida, prepara-se de antemão para o toquezinho masoquista, estragando o prazer. Por outro lado, assim como no bocejo, somos influenciados pelo simples contato visual. Frente à mínima possibilidade de sermos cutucados, a mesma região cerebral desencadeia um processo idêntico ao da cócega real, gerando o pânico. A reação é o riso descontrolado. Alguns casos podem beirar a histeria. Daí a uma análise sexual de zonas histerógenas seria um passo que não darei no presente texto, até porque prometi pegar leve, muito leve.

Publicado no Diário, semana passada

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