28 de abr de 2012

Não se discute?

Tudo é relativo. Mas algumas versões aproximam-se mais do absoluto do que outras. Não são verdades. São, antes, possibilidades inconvenientes, que a maioria sequer se atreve a ponderar. Dos que se dispõem a correr o risco de um pensamento enviesado, grande parte reage em desproporção de humor e com argumentos débeis de contraponto. São, aprioristicamente avessos a qualquer ideia que ameace seu conjunto de bens culturais. Compreende-se. É instintivo. É pela prole e pela pretensa continuidade da espécie. É desta forma, entretanto, que a minoria capaz de formular indagações ao estado aceito das coisas é tachada de excêntrica ou de intolerante.
Recebi por e-mail um texto do Dráuzio Varella justamente sobre a intolerância religiosa imposta aos ateus. O Dr. aponta que todos poderiam ser chamados de ateus, quando confrontados com as crenças alheias. Assim, a religião do próximo não passaria de superstição. Afinal o que pensa o evangélico quando vê numa esquina um despacho com uma galinha morta? Ou o judeu quando encontra um católico prostrado aos pés de uma virgem santa grávida de Deus? Ou ainda, todo e qualquer crente ante o ateu que prega uma inexistência divina? O texto incita ao pensamento e aponta a pouca tolerância que o ateísmo também sofre no diálogo com outros credos.
Em outro material, que compartilhei nas redes sociais, falava-se de alguns profetas das maiores religiões, questionando as circunstâncias que envolveram as revelações de suas mensagens sagradas. Quando Moisés subiu ao Monte Sinai e recebeu as Tábuas da Lei, houve testemunhas? Os ditos regulamentos teriam sido guardados na lendária Arca da Aliança, para sempre perdida. Quando Maomé recitou os versos do Alcorão, trazidos pelo anjo Gabriel, tampouco alguém o acompanhava. O mesmo se dá com o religioso Joseph Smith, dos Santos dos Últimos Dias. Ao ser instruído pelo anjo Moroni para traduzir a mensagem das placas de ouro com o Livro de Mórmon, ninguém o acompanhava. E necas das placas até hoje.
Captou o ponto, leitor? Ao mesmo tempo em que pode ser cutucado ao ver seus referenciais de vida questionados, pode facilmente apontar como desprovida da verdade a ideologia do seu vizinho. Somos defensores do relativismo cultural, desde que não mexam no queijo sagrado de nosso próprio senhor. O texto conclui que os tais profetas só podiam beber, estar de porre. Por analogia lembrei de Noé, que tomou um pileque e saiu peladão aprontando no velho testamento. E também do próprio Cristo, que foi tentado no deserto depois de quarenta dias de fome e delírio. Tem também a profetiza dos adventistas, Ellen White, que levou uma pedrada na cabeça durante a infância e o maluquete Inri Cristo, que caiu de narega no chão enquanto jejuava. Todos alegando receber mensagens do Pai, diferem em que? Na legitimidade da fé de cada um e somente aí. Aproximam-se em que? Essa deixo em aberto para meditação matinal.

Pensei que o tal texto seria pertinente para a reflexão que trago agora. Mas credo! A turma não gostou. E os testemunhos? Estão lá, no meu facebook.

Publicado no Depê, 27/04/12


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